sábado, 4 de fevereiro de 2012

TÍTULO X ESSÊNCIA: UMA REFLEXÃO SOBRE OS PRINCÍPIOS DO SERVIÇO CRISTÃO À LUZ DO CARÁTER DE JESUS E SUA OBRA, BEM COMO DA ESTRUTURA ECLESIÁSTICA DO NOVO TESTAMENTO E UMA PROPOSTA BÍBLICA E ÉTICA DE CRÍTICA AOS SISTEMAS RELIGIOSOS E DE AUTOCRÍTICA



I) Introdução.
         Nunca me canso de falar que hoje vivemos tempos de muita confusão doutrinária quando se trata do Evangelho de Jesus. Verifica-se que uma das áreas que está em crise é a própria liderança e o seu exercício e, consequentemente, a questão do serviço cristão. Na atual conjuntura, um fenômeno vem tomando proporções cada vez maiores a cada dia, qual seja a busca de “títulos” religiosos de liderança. Não se pode colocar todas as pessoas no mesmo grupo, já que a motivação da aquisição de tais “títulos” é variada, indo desde um coração sincero que quer agradar a Deus a outros que buscam reconhecimento e status, outros que almejam conquista financeira, dentre outros.

II) Distinções e delimitação do objeto da discussão: alguns comentários acerca da estrutura eclesiástica do Novo Testamento.
Se nós observarmos o que o Novo Testamento ensina a respeito da estrutura de liderança de uma congregação, perceberemos que as Escrituras são categóricas em expor que esta é formada por um corpo de presbíteros ou bispos e por um corpo de diáconos, conforme se pode depreender 2 Timóteo 3 e Tito 1, apenas a título de exemplo.
         Deus também separou uns para profetas, outros para apóstolos, mestres, evangelistas, bem como outros para pastores. Estes são os ministérios que o Senhor estruturou para promover o amadurecimento do Corpo de Cristo, a igreja. São ministérios e não cargos eclesiásticos. Não são cargos de liderança, mas uma vocação que vem de Deus para o desempenho de um serviço específico com a finalidade de edificar os irmãos na fé.
         Não sei se você já percebeu, mas não há menção em lugar algum nas Escrituras de que “pastor” é um cargo de liderança. A expressão “pastor” para designar uma determinada autoridade da qual provém as decisões superiores e últimas para uma determinada congregação ou como membro de um conselho foi consagrada pela própria tradição histórica.
         Para preservar a pureza das Escrituras, algumas congregações se estruturaram através de um conselho de presbíteros ou bispos, sendo o “pastor”, um dos membros do conselho, o qual tem o mesmo peso que os outros membros deste, que são oriundos dentre os membros espiritualmente maduros da própria congregação, sendo as decisões da igreja tomadas por maioria, privilegiando-se, assim, uma estrutura eclesiástica democrática e representativa, bem como submissa ao Espírito Santo, reservando-se ao “pastor” a atribuição da pregação da Palavra como ofício espiritual (1 Tm 5:17). Este é o quadro eclesiástico montado pela Bíblia, o qual também é formado por um corpo diaconal, que não toma parte nas decisões da congregação, mas exerce outros trabalhos fundamentais para a vida da igreja. Tendo em vista esta estruturação, a ideia de liderança de um determinado “pastor” em uma congregação exercida isoladamente, dando todas as ordens, estando sem a sujeição de um conselho de homens maduros espiritualmente não se coaduna com as prescrições bíblicas.
         Historicamente, durante a Idade Média, a igreja católica se estruturou em um sistema complexo de hierarquia, que se distanciou da pureza das Escrituras, criando uma série de cargos eclesiásticos, tais como padres, bispos, arcebispos, o Papa, dentre outros, os quais se estabeleceram para sustentar todo um esquema de dominação das massas. Criou-se também todo um imaginário e simbolismo em torno destes cargos, tal como vestimentas pomposas e estilizadas, bem como o uso de cerimônias e rituais para conferir a eles um “manto” místico e intocável, transformando-os em “verdadeiros” representantes de Deus, inquestionáveis e intocáveis, além de “amarrar” a aprovação de Deus e a salvação das pessoas nas mãos de tais “líderes”, por exemplo, através da prática da confissão perante eles e do pagamento de indulgências. O resultado disso tudo, além da morte do genuíno evangelho da verdade, foi a formação de uma aristocracia religiosa, rica e poderosa, que moldava a mente das pessoas, escondendo-lhes as próprias Escrituras, bem como, não só detendo o poder espiritual, mas também o poder político.
         Com a reforma protestante, esta hierarquia estrutural complexa dos cargos eclesiásticos foi abandonada em prol de estruturações simples, bem como houve a abolição dos símbolos e rituais religiosos que sustentavam aquela atmosfera “mística”, passando os templos, por exemplo, a não ostentar qualquer figura, gravura ou mesmo artefatos e símbolos, bem como os líderes a não usarem roupas que os distinguissem dos demais membros da congregação.
         Nos tempos atuais, contudo, muitas congregações estão voltando para aquela época do feudalismo, assumindo novas formas de criar um manto “místico” em torno de sua liderança com a finalidade de embasar um sistema de dominação. Vemos hoje pessoas denominadas de “apóstolos”, “profetas”, os quais estariam em uma hierarquia acima dos denominados “pastores” e estes, por sua vez, estariam acima de outras lideranças “menores”, tais como líderes de ministérios, obreiros, discipuladores, entre outros títulos, criando-se um verdadeiro sistema complexo de liderança “em cascata”. Nesse movimento de atribuição de títulos, já foi até designado o título de “patriarca”. Desde já esclareço que não quero por ninguém que usa tais títulos em descrédito; conheço pessoas que tem o título de “apóstolo”, de “profeta”, de líder de ministério que fazem o seu trabalho com honestidade, fidelidade, de todo o coração e amor a Deus. O que eu ponho em questão é o uso de tais títulos como uma forma de construir todo um sistema de “mistificação” da liderança com o fim de manipular as pessoas e distorcer o Evangelho da Verdade. Conforme já assentado, tais títulos, à luz do Novo Testamento, inexistem como cargo de liderança, mas tão somente como forma de exercício de um determinado tipo de ministério, de serviço cristão.
         Acrescente-se que esse novo “feudalismo religioso” também construiu o seu imaginário, os seus simbolismos, tais como o uso de símbolos do Antigo Testamento, dentre os quais a figura do profeta, que muitos se arvoram em identificar com o líder religioso, fazendo-o inquestionável e intocável como a própria voz de Deus, bem como a expressão “o Ungido do Senhor”, o qual não deve ser tocado.
         Nesses sistemas, o líder acaba sendo a “resposta” de Deus para a vida da pessoa, transformando-se em um confessor e “determinador” das atitudes que a pessoa deve tomar. Algo que é bom, dividir as nossas cargas e adversidades com outros para receber cura, como prescreve Tiago 5:16, acaba sendo desvirtuado para se transformar em manipulação, na qual é posto todo um discurso de honra ao líder, o qual tem de ser obedecido e honrado incondicionalmente, sob pena de maldição de Deus (cf. CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em Nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, p.20, 33, 47).
Há também o retorno indevido de rituais do Antigo Testamento, tais como as festas do povo judeu, os chamados “atos proféticos”, bem como mecanismos de honra financeira na qual o fiel entrega seus bens em favor da liderança para receber uma “hemorragia de bênçãos” e, caso não honre financeiramente, está debaixo de maldição. Já tomei conhecimento de que um determinado líder pregou sobre o dízimo de 110%. A Bíblia, de fato, convoca-nos a honrar a Deus com os nossos bens, seja com dízimos, seja com ofertas, até mesmo para sustentar a obra, mas nunca de forma abusiva; não é a toa que dízimo é apenas a décima parte dos nossos ganhos, em que o Senhor nos prova na nossa obediência e fidelidade para com Ele; quanto às ofertas, estas não têm valor estipulado, até porque nestas o Senhor prova o desprendimento do nosso coração, ou seja, a nossa liberalidade. O certo é que o Senhor nunca pediu nossos bens em prejuízo de nossas necessidades fundamentais e do sustento de nossa família, bem como nenhuma quantia que dermos em favor da igreja ou de seus líderes é moeda de troca diante do Trono de Deus, ou seja, não podemos esperar comprar com o nosso dinheiro as bênçãos de Deus em nosso proveito.
         Durante a idade média, era disseminada a heresia de que as Escrituras só poderiam ser interpretadas pelos membros da casta religiosa católica e de que a Bíblia não poderia ser inteligível pelas pessoas comuns. Com a Reforma Protestante, a Bíblia foi traduzida para a língua materna das pessoas, disseminando-se que a mesma poderia ser entendida por todos como a Palavra de Deus. Hoje, sem dúvida a Bíblia está nas mãos de praticamente todos que se dizem “evangélicos”, contudo, a mesma é pregada, em grande parte, de maneira superficial e sob uma ótica funcionalista, isto é, de modo a possibilitar que uma determinada estrutura religiosa funcione e se reproduza; o objetivo não é a disseminação da pureza do Evangelho, mas atingir as metas do sistema religioso, seja a extorsão financeira dos fiéis, seja o crescimento da igreja, entre outras múltiplas finalidades que dependerão das motivações particulares de cada grupo que se trate. A regra atual em muitas congregações é: “tome a Bíblia, leia-a, mas eu lhe dou a única forma possível da mesma ser interpretada; se você interpretar de maneira diferente da forma que eu lhe ensino, você será um rebelde e feiticeiro e estará sob a maldição de Deus”.    
Diante de tal quadro, a primeira coisa que temos de fazer é orar pelos nossos líderes para que não caiam no engano ou, se nele estiverem, para que Deus possa abrir-lhe os olhos para dele saírem.
         Nunca podemos receber nenhuma ideia ou aceitar um determinado sistema religioso de forma incondicional e acrítica. As Escrituras Sagradas são o nosso parâmetro e, à luz das mesmas, sob a orientação e discernimento dados pelo Espírito Santo, é que devemos ponderar acerca de todas as questões. A Bíblia nos exorta a não desprezarmos as profecias, mas somente reter o que é bom, abstendo-nos de toda a forma de mal (1 Ts 5:19-21).
         Por fim e não menos importante, podemos estar ou não, em uma congregação com uma estrutura complexa de liderança, ou mesmo em uma congregação que “abusa” de títulos inadequados à luz da estrutura do Novo Testamento, quaisquer que sejam as motivações dos líderes, quer sejam de boa-fé, quer sejam más, entretanto, devemos ser sóbrios e vigilantes no sentido de que Deus trabalha com um princípio moral inegociável: o princípio da responsabilidade pessoal. Cada um vai prestar contas de seus atos diante de Deus. No que refere a nós, temos de possuir a consciência de que Deus nos pedirá contas de nossas atitudes, portanto, não podemos transferir para ninguém a responsabilidade que é nossa de conduzir a nossa vida à luz dos princípios da Bíblia, sendo guiados pelo Espírito Santo para tanto. No dia do juízo, não poderemos nos escusar de qualquer atitude errada dizendo: “ah, mas foi meu líder que disse isso”. Temos a responsabilidade de conhecer as Escrituras e de nos determinar de acordo com elas; os líderes que o Senhor coloca em nossas vidas estão apenas para nos dar uma ajuda temporária em determinadas situações, mas não como substitutos da nossa própria vontade, nem tampouco substitutos do Espírito Santo.

III) Princípios do serviço cristão à luz do caráter de Cristo e sua obra.    
         A seguir, far-se-á uma exposição de alguns princípios marcantes em relação ao ministério de Jesus, contidos no capítulo 1 do Evangelho de Marcos, os quais devem caracterizar a própria essência do nosso serviço como crentes a favor do corpo de Cristo, cabendo a nós a responsabilidade de nos adequarmos a eles.
III.I) Jesus não sustentava seu ministério com títulos, nem milagres, nem sinais, mas com a pregação do Evangelho vivo da salvação.
Lendo os Evangelhos, algo que é digno de nota é a postura que Jesus tomava diante dos títulos em relação ao seu ministério público. Jesus não queria ser reconhecido diante dos homens por seu título de Filho de Deus, nem por aquele que realizava milagres e curas, mas queria disseminar o Evangelho da Salvação, levando os homens ao arrependimento. Ele não queria sustentar seu ministério com um título e até calava a boca dos demônios para que não dissessem quem Ele era, como vemos em Mc 1:34: “E ele curou muitos doentes de toda a sorte de enfermidades; também expeliu muitos demônios, não lhes permitindo que falassem, porque sabiam quem ele era”. Além disso, instruía a muitos que recebiam seus milagres que não o dissessem a ninguém, conforme se observa, a título exemplificativo, em Mc 1:40-45, na cura de um leproso.
III.II) Além da obediência ao Pai, a compaixão era a grande motivação de seu ministério.
         Em Marcos 1:40-45, a Bíblia relata a cura de um leproso. As escrituras são claras em afirmar que, diante do leproso, Jesus, “profundamente compadecido” (v. 41), curou o homem. O registro desta compaixão do Senhor é importante, porque o pensamento dominante entre os gentios (não judeus), padrão este influenciado também pela cultura grega, era a de que a principal característica de Deus era a apatheia, isto é, a incapacidade de sentir qualquer emoção em relação a nós; sem compaixão (cf. SEAMANDS, David. Se ao menos. Venda Nova: Betânia, 1996, p. 40).
         A boa nova é que Deus se importa conosco, com nossos sofrimentos e adversidades, sendo a morte de Jesus na cruz o seu maior ato de identificação conosco, propiciando uma nova vida na presença do Senhor, do qual estávamos separados por causa do pecado.
         No episódio da cura da lepra, Jesus, movido de compaixão, mostra que Ele tem poder para restaurar o homem de sua miséria espiritual. A lepra, para a cultura do Antigo Testamento, representava a impureza espiritual; a perda da sensibilidade da pele pela doença simbolizava a corrupção moral e a insensibilidade do homem em relação ao pecado e de sua responsabilidade diante de Deus; o doente era tido por cerimonialmente impuro e já não podia mais praticar e viver os ritos do judaísmo, tendo que se afastar do convívio social de sua família e amigos para viver em um local separado da cidade para não contaminar outros com a moléstia, conotando que a natureza do pecado é a separação de Deus e do nosso semelhante.
         Nesse episódio, Jesus nos mostra que Ele tem poder para curar e transformar a condição decaída do homem. Ele tem poder para retirar do indivíduo a impureza e o pecado, aquilo que há de mais sujo no ser do homem, quebrando a cadeia da separação de Deus e da solidão, do ostracismo da “lepra” espiritual.
         Jesus tem poder para curar no físico, mas Ele, sobretudo, quer nos curar em nossas almas e ressuscitar o nosso espírito, plantando a salvação eterna.
         Os milagres de Jesus não eram simplesmente demonstradores do seu poder, mas eram verdadeiras parábolas vivas e dramatizadas que tinham a finalidade de demonstrar as essências do Reino de Deus para as pessoas, bem como as realidades espirituais; não é a toa que o apóstolo João chamava os milagres de “sinais” (cf. STOTT, John. Cristianismo Básico. Viçosa: Ultimato, 2007, p. 39). O nosso salvador não queria que os milagres ligassem o coração do homem a uma visão das coisas deste mundo, ao contrário do “evangelho” que muitos pregam hoje, canalizado para transformar Deus em um mero “fantoche” que tem a “obrigação” de atender todos os caprichos imediatistas do homem.
III.III) Jesus ensina com a autoridade outorgada por Deus.
         Ainda em Marcos 1:22, observa-se que as pessoas ficavam maravilhadas com o ensino de Jesus, porque ensina com autoridade e não como os escribas. A autoridade que os escribas reivindicavam era a própria citação de outros escribas renomados (cf. RYRIE, Charles. Bíblia Anotada Expandida. São Paulo: Mundo Cristão, 2006, p. 958), isto é, a tradição humana; eles eram despidos da verdadeira autoridade espiritual, que é aquela que Jesus tem e que todo cristão autentico deve possuir, oriunda de um íntimo relacionamento com o Senhor, que gera a vivência do fruto do Espírito e das realidades espirituais oriundas da graça de Deus.
III.IV) O ministério de Jesus era sustentado pela oração, objetivando o propósito de Deus Pai para Ele.
         Jesus não orava só para nos deixar o exemplo, mas, sobretudo, porque a comunhão com o Pai é a essência da vida e de todo serviço que tivermos que desenvolver em prol do Senhor. Em Mc 1:35, observa-se que Jesus ia para um lugar deserto para orar durante a madrugada, isto é, Ele desenvolveu a disciplina da oração em seu “lugar secreto” de intimidade com o Pai. E assim nós também devemos cultivar essa intimidade com Deus através da oração, buscando dEle o propósito específico para as nossas vidas, tal como o nosso salvador em Mc 1:38.
III.V) O serviço de Jesus pressupunha sua identidade em Deus e a sua humildade.
         Este é ponto crítico de cisão entre aquele que serve a Deus e aquele que trabalha para si próprio, cultivando seus interesses usando em vão o nome do Senhor. Em Marcos 1:9-11, vemos o episódio do batismo do nosso salvador, no qual o próprio Deus declara que Jesus é seu filho amado. A palavra grega para filho aqui é huios, o filho maduro, e não a palavra teknon, usada para as crianças (cf. Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 2422 e 2434). Jesus é o filho maduro de Deus, o qual desfruta do amor do Pai e faz a sua vontade em obediência e submissão a Ele, cumprindo o eterno propósito dEle estabelecido desde antes da fundação do mundo (Ef 1). Esse é o nosso alvo, como filhos maduros de Deus, desfrutando do amor do Pai, conscientes de que o Senhor nos adotou como filhos e obedecendo-lhe em resposta a Sua imensa graça recebida, concretizando a vontade dEle para gerar mais graça no desempenho do nosso serviço ao edificar o corpo de Cristo.
         No episódio do batismo de Jesus, o Espírito Santo desce sobre Ele na forma de uma pomba. No sistema do Antigo Testamento, uma das figuras que apontava para a morte de Cristo como exigência de Deus para o perdão dos nossos pecados e a nossa salvação era o holocausto (Lv 1), ou seja, o sacrifício de animais, que podia ser de gado miúdo, de carneiros, de cabritos (Lv 1:10) ou de rolas ou pombinhos (Lv 1:14), sendo esta última a oferta dos pobres. O batismo de Jesus, então, foi um batismo de simplicidade, de humildade, que é a beleza da santidade. Essa também é uma qualidade de caráter que precisamos buscar a cada dia na dependência de Deus.
         Hoje, fala-se muito em adquirir “unção sobrenatural” para o desempenho do serviço cristão, bem como para ganhar as pessoas para Cristo. Certamente, precisamos de unção, mas ela não vale de nada se não apresentamos o fruto do Espírito (Gl 5:22-23), que é um caráter transformado segundo as virtudes de Deus. Unção para quem não tem um caráter transformado só vai redundar na ruína da própria pessoa que a recebe, afinal “ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque semelhante remendo tira parte do vestido, e faz-se maior a rotura”. “Nem se deita vinho novo em odres velhos; do contrário se rebentam, derrama-se o vinho, e os odres se perdem; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam” (Mt 9:16-17). A atual ênfase na “unção” nada mais é do que do que uma distorção do Evangelho da Verdade. A ênfase de Jesus sempre foi e sempre vai ser em uma vida transformada pelo Espírito Santo através do processo de arrependimento e fé. Leitor, não se engane com o que você anda ouvindo por aí.

IV) Parâmetros para uma crítica adequada dos sistemas religiosos à luz das Escrituras, bem como de uma autocrítica.
IV.I) Alguns textos gerais a amparar a crítica dos sistemas religiosos.
         Conforme já assentado acima, há uma essência que deve ser agregada no exercício do serviço cristão, bem como a Escritura é o nosso parâmetro de avaliação e crítica.
Crítica, sim. Rebeldia, não.
Somos chamados por Cristo para viver uma nova vida, o que não importa em jogarmos a nossa razão na lata do lixo em nome de um movimento religioso e recebê-lo sem uma avaliação criteriosa; afinal, o nosso culto envolve todo o nosso ser, inclusive o uso de nossas faculdades mentais: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12:1).
O Senhor nos chama também a provar os espíritos para ver se são Deus: “Amados, não deis crédito a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque há muitos falsos profetas que se têm levantado no mundo...” (1 João 4:1). Aqui a advertência é justamente com o perigo dos falsos profetas.
As nossas faculdades mentais devem ser exercidas com prudência e discernimento, sendo que, conforme já salientado, a Bíblia nos exorta a não desprezarmos as profecias, mas somente reter o que é bom, abstendo-nos de toda a forma de mal (1 Ts 5:19-21).
O bom exemplo de cristãos é dado pelos crentes da cidade de Beréia em Atos dos Apóstolos, capítulo 17:10-12:
E logo, de noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; tendo eles ali chegado, foram à sinagoga dos judeus. Ora, estes eram mais nobres do que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com toda avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim. De sorte que muitos deles creram, bem como bom número de mulheres gregas de alta posição e não poucos homens (grifo nosso).
IV.II) O exemplo do Apóstolo Paulo e de C. S. Lewis:
         Um bom exemplo de crítica aos sistemas religiosos foi feito pelo apóstolo Paulo. Ele não citava nomes, mas, de forma explícita e contundente, confrontava os falsos ensinos à luz das Escrituras. Não desqualificava a pessoa do líder, nem mencionava seu nome ou qualquer outra característica, mas atacava o pensamento, o falso ensino disseminado.
         Semelhantemente, preservando a ética, o escritor cristão C. S. Lewis, defrontou-se com a tarefa de desqualificar uma determinada forma de sistema de ensino que retirava do pensamento humano a qualidade de emitir juízos valorativos. Ele criticou as idéias de um livro específico, chamando-o sob o pseudônimo de “Green Book” (livro verde) e os seus autores, de “Gaio” e “Tício” em vez dos nomes originais, abordando e confrontando as ideias veiculadas, bem como esclarecendo as graves consequências de sua adoção (cf. The Abolition of Man. New York: HarperCollins, 2001).
IV.III) A utilidade da crítica dos sistemas religiosos e uma reflexão para a nossa autocrítica:
         A utilidade das ideias aqui veiculadas a respeito da estrutura eclesiástica à luz do Novo Testamento, bem como à luz do ministério de Jesus, de modo algum, serve para criar ainda mais rebeldia no meio do povo de Deus, mas para aprofundar a nossa responsabilidade pessoal diante do Senhor, além de conscientizar o leitor de que nós devemos andar de acordo com os parâmetros que Deus estabeleceu em sua Palavra, bem como somos responsáveis pelo que ensinamos e passamos aos outros a título de ensino e não podemos disseminar um ensino distorcido da Palavra para alimentar os fins pessoais de líderes que andam desviados da Verdade naquilo que não condiz com a pureza das Escrituras.
         A segunda utilidade é a detecção dos falsos profetas e mestres, o que o próprio Jesus, no famoso Sermão do Monte, disse que seriam pedras de tropeço para nós e que os conheceríamos pelos seus maus frutos (Mt 7:15-23).
         A terceira utilidade que se pode levantar é para a nossa vida pessoal. Como temos desempenhado o serviço cristão? Temos trabalhado para nós mesmos ou temos trabalhado para o Senhor? Temos usado o Evangelho para nossos próprios fins egoístas de reconhecimento, fama, acúmulo de bens, para compensar carências pessoais? Qual é a nossa verdadeira motivação na prática das boas obras? Essas são perguntas que cada um de nós tem de responder para si mesmo diante de Deus e pedir para que o Senhor por meio do Espírito Santo nos sonde a fim de que possamos nos arrepender do que temos praticado.
         O que tem sido mais importante para nós, ostentar uma reputação através do desempenho de alguma obra ou um caráter transformado à imagem e semelhança da virtude Cristo? O que tem sido mais importante para nós, ostentar dons espirituais que todos podem ver ou o fruto do Espírito? A maioria de nós não tem um título eclesiástico, mas, com certeza, todos nós temos uma reputação de crente construída a partir de algo que ostentamos para os outros. Temos passado para os outros algo que realmente não somos?
         O que temos passado para os outros a título de Evangelho? Jesus trabalha com a Verdade. Ele confrontou a mulher samaritana a respeito de suas relações sexuais desregradas, confrontou Nicodemos a respeito da necessidade de um novo nascimento, confrontou o jovem rico a respeito de seu materialismo, confrontou os discípulos a respeito da incredulidade deles, entre outros muitos exemplos. Jesus confrontava a respeito das estruturas de pecado e orgulho das pessoas a fim de levá-las ao arrependimento e herdarem a salvação eterna. O que temos oferecido às pessoas, um “evangelho de melhoria de vida”, de “fim de sofrimentos” ou um Evangelho do arrependimento? Não é a toa que os bancos das igrejas estão cheios de “crentes carnais”, se é que se pode chamá-los assim.
         Leitor, somente a Verdade, por mais dura que ela seja, inclusive a respeito de nós mesmos, tem poder para nos libertar. Pense nisso.
          
Pablo Luiz Rodrigues Ferreira
rugidodaverdade.blogspot.com
pablolrferreira@hotmail.com

  


sábado, 31 de dezembro de 2011

O CUSTO DO DISCIPULADO DE JESUS: UMA PEQUENA REFLEXÃO NO EPISÓDIO DO JOVEM RICO


Leia o texto base:

Mateus 19 (Versão Almeida Revista e Atualizada)
13 Trouxeram-lhe, então, algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse; mas os discípulos os repreendiam. 14 Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus. 15 E, tendo-lhes imposto as mãos, retirou-se dali. 16 E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? 17 Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. 18 E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; 19 honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? 21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. 22 Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades. Então, disse Jesus a seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. 24 E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. 25 Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? 26 Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.

I) O episódio do Jovem Rico é exemplar em demonstrar que somente Jesus é a fonte da vida eterna. O jovem queria herdar a vida eterna e, com certeza, reconheceu que Jesus tinha autoridade espiritual para dar a resposta certa acerca desta questão, apontando-lhe o caminho correto a trilhar.
II) O texto mostra que uma pessoa, apesar de todo o seu interesse em herdar a salvação, pode não estar disposta a pagar o preço do discipulado de Jesus. O jovem não estava disposto a renunciar aquilo que era o fundamento de sua vida, o orgulho, as riquezas, a soberba da vida, o que o impediu de herdar a vida eterna. Não estava disposto a se desfazer dos ídolos que mantinha em seu coração a fim de que Jesus o regenerasse por completo. E nós, o que tem fundamentado a nossa vida? Qual tem sido a nossa verdadeira busca no Evangelho? O bondoso Mestre tem estado no centro de nosso coração, fundamentando todo o nosso ser e vida?
III) Jesus conhece as reais motivações do nosso coração e não se contenta com a aparência exterior. O jovem exteriormente cumpria todos os mandamentos da lei. Nenhum fariseu acharia nele motivo de condenação. Entretanto, Jesus o conhecia no íntimo de seu ser e sabia que o jovem não estava disposto a uma entrega verdadeira. E nós, estamos dispostos?
IV) Na equação da eternidade, o quase salvo é igual ao totalmente perdido. O jovem rico é o protótipo de muitas pessoas que evangelizamos hoje: “aceitam” Jesus, mas, infelizmente, depois de decorrido algum tempo, percebemos que, em verdade, a pessoa nunca nasceu do Espírito de Deus. O jovem rico, nos dias de hoje, seria talvez o tipo de pessoa que gostaríamos de “ganhar” como ovelha, todavia, a sua decisão foi clara no sentido da perdição eterna.
V) A marca do discipulado de Jesus é a proclamação do Evangelho em verdade e em amor. Jesus mostrou a verdade acerca da condição espiritual do jovem rico, mesmo correndo o risco de perdê-lo, como, de fato, perdeu-o, o que nos mostra um princípio fundamental: somente a verdade tem o poder de salvar e libertar. Muitas vezes, evitamos dizer certas coisas para algumas pessoas com medo de perdê-las no processo de evangelização, consolidação ou discipulado e fazemos isso em nome do “amor”. Sabe, como o nosso amor é fajuto e degenerado. Amar é dizer a verdade em brandura e compaixão. Em Marcos 10:21, a Bíblia é clara em mostrar que Jesus amou o jovem e o amou tanto que precisava lhe dar o parâmetro verdadeiro para uma decisão consciente e definitiva, a decisão mais importante de sua vida, a decisão pela vida eterna. Leitor, o seu amor pelas pessoas tem sido fajuto e degenerado deste jeito? Você tem “enfeitado” ou deturpado o Evangelho da Verdade para “ganhar” as pessoas para sua congregação ou mantê-las no seu discipulado? Jesus não relativizou as suas condições para a vida no Evangelho, nem nós devemos fazer isso. Quem ama, libera, independente das decisões que a pessoa venha a tomar. Será também que estamos dispostos a nos relacionar de forma adequada com as pessoas de modo que recebamos a verdade a nosso respeito por pior que ela seja? Estamos dispostos a que Deus nos mostre a verdade a nosso respeito a fim de que possamos crescer e ser libertos?     
VI) A atitude do jovem rico foi oposta a atitude que as crianças tiveram diante de Jesus. O jovem rico não quis receber o Reino de Deus como uma criança, com uma fé simples, uma confiança sincera, com pureza e desembaraço. Meu desejo para você leitor é que, diante destas reflexões, você possa buscar a essência da vida cristã em amor e em verdade, sabendo que, apesar das nossas escolhas erradas, Jesus conhece o nosso coração melhor do que nós mesmos e não deixou de nos amar. O Salvador espera você de braços abertos para recebê-lo como uma criança que só quer desfrutar do colo amoroso do Pai. Se você for sincero com Deus, Ele te capacitará para que você possa vencer os embaraços da vida que tentam ocupar o seu coração.

 Pablo Luiz Rodrigues Ferreira
Elaborado em dezembro de 2011
pablolrferreira@hotmail.com
rugidodaverdade.blogspot.com
 

domingo, 13 de novembro de 2011

ENCORAJAMENTO A UMA VIDA CRISTÃ MADURA: A RESTAURAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DO SERVIÇO CRISTÃO


A igreja de Tessalônica foi fundada pelo apóstolo Paulo durante sua segunda viagem missionária (Atos 17), contudo, segundo alguns estudiosos, o tempo em que passou evangelizando a mencionada região foi breve e não teria excedido um mês, pois somente três sábados são mencionados no livro de Atos (At 17:2). Outros entendem que o apóstolo teria passado mais tempo fazendo um trabalho fora das sinagogas, tendo em vista que a maioria da igreja seria formada por gentios (= não-judeus) (1 Ts 1:19 e 2:14-16), sendo esta última a corrente mais aceita.
         Com o objetivo de consolidar o trabalho já realizado entre os tessalonicenses para que as sementes espirituais plantadas não morressem (1 Ts 3:5), os crentes atingissem a maturidade na vida cristã e se tornassem verdadeiros discípulos de Cristo (1 Ts 1:6), Paulo escreve a carta de 1 Tessalonicenses, encorajando os convertidos a viver a vida cristã em santidade (1 Ts 3:2), nos frutos do Espírito Santo e no serviço da obra de Deus.
         A seguir, far-se-á uma síntese de alguns princípios que a epístola contém, os quais, se vividos por nós, transformarão a nossa vida, levando-nos a um patamar superior de fé e consistência na vida cristã.
1- Princípios relativos ao serviço cristão:
1.1- A importância de ganhar pessoas para Jesus não somente em Palavra, mas em Poder do Espírito Santo e em firme convicção de fé que as conduza para o caminho da salvação (1 Ts 1:5, 7): o cristão tem de viver uma vida que ultrapasse a Palavra falada, atingindo um nível de intimidade com Deus que possibilite desenvolver o fruto e os dons do Espírito Santo para o serviço da obra do Senhor, ou seja, trata-se da importância de se construir um bom testemunho e alcançar a essência do cristianismo, que é o amor, para impactar vidas para o Senhor e ser sensível a voz e ao clamor do coração de Deus pelos perdidos para os resgatar.   
1.2- A importância do crescimento espiritual através da instrução contínua na Verdade: Paulo sabia que as sementes plantadas poderiam morrer e, por isso, escreveu a carta para consolidar e maturar o trabalho já realizado, relembrando os crentes das verdades espirituais já ensinadas e esclarecendo aquelas que ainda tinham que aprender para que não caíssem no engano do inimigo (1 Ts 3:5; 5:14). As verdades espirituais precisam ser relembradas e “inculcadas” em nossa mente e guardadas em nosso coração a fim de que possamos praticá-las e sermos transformados pelas mesmas (Dt 6:6-8). O apóstolo sabia que a vida cristã requer contínuo investimento, cuidados e instrução sólida para que o discípulo de Cristo alcançasse a maturidade e a vivência necessárias para caminhar em santidade e abandonar os velhos ídolos e suportar as tribulações e perseguições (1 Ts 1:6, 8). Enviou Timóteo para realizar a obra de fortalecimento da fé (1 Ts 3:2,5). Paulo também fala da importância da honra aos guias espirituais que realizam com desprendimento a obra do discipulado (1 Ts 5:12-13). O discípulo de Jesus é instruído pelo corpo de Cristo, a igreja, um corpo dinâmico, em que os diversos componentes individuais, utilizando-se dos dons que o Espírito Santo concedeu a cada um, edificam o todo.
1.3- O serviço cristão com empenho e dependência do Espírito Santo sempre gera discípulos para o campo da obra do Senhor: o trabalho que Paulo fez, embora árduo e sob tribulação, mesmo sendo de pouca duração, foi suficiente para que o Espírito Santo de Deus formatasse discípulos que reproduziram a vida de Jesus e evangelizaram a região da Acaia e da Macedônia, pelo que há a necessidade de o discípulo de Jesus receber a Palavra no espírito, não como um ensino de homens, mas abrindo o coração para receber a Verdade que liberta e deixar que o Espírito Santo opere eficazmente (1 Ts 2:13). Esse é o discipulado por excelência, qual seja aquele em que o discípulo chega a um nível de maturidade em que ele consegue receber as orientações do próprio Espírito Santo para ser conduzido nas decisões que necessita tomar em sua vida, sendo não mais um dependente de outro para fluir em Deus, mas interdependente com os seus semelhantes para realizar, como servo valoroso, os objetivos do Reino de Deus.
Não desprezo a necessidade do discipulado individual e do aconselhamento, em que a pessoa é acompanhada individualmente a partir de suas necessidades de crescimento específico, muito pelo contrário, incentivo-o, entretanto, animo-me a dizer que o trabalho de discipulado é muito mais do que isso, referindo-se a uma obra de propagação e amadurecimento do Evangelho no coração das pessoas que envolve a participação dinâmica de todo o corpo de Cristo, cada um utilizando seu dom específico para que cada um e todos sejam edificados, isto é, abrange, por exemplo, a formação de pastores e obreiros, a formação de ministérios, a formação de profissionais liberais, de empresas privadas e servidores públicos, etc., com a finalidade de estabelecer os princípios do Reino de Deus nas diferentes áreas da sociedade, ou seja, nas artes e entretenimento, na família, na mídia e na comunicação, no governo e na política, na ciência e na educação, na economia e nos negócios, e não só dentro da igreja (Ef 4:11-16), removendo nestas áreas os sistemas pelos quais o mundo atua, promovendo os padrões do Senhor (cf. GUILLEN, Fernando. Sete Montes. Belo Horizonte: Fernando Guillen, 2009, p. 23-39).
Os ensinamentos do Apóstolo Paulo são claros em apresentar a igreja como o corpo de Cristo, um corpo em que cada membro é dotado de dons para a edificação de todos. Há quatro listas de dons espirituais no Novo Testamento, em 1 Coríntios 12, Romanos 12, Efésios 4:7-12, 1 Pedro 4:10-11, contudo, nosso Senhor é um Deus de multiforme graça, não se restringindo os dons espirituais ao rol contido nestas listas.
Veja o que diz 1 Co 12:4-7:
4 Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. 5 E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6 E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7 A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum.
A igreja é um corpo dinâmico, no qual há o desempenho de vários ministérios com a finalidade de levar todos os cristãos a uma fé madura e sólida, sendo o Espírito Santo o doador dos dons espirituais segundo sua soberana vontade, havendo, portanto, uma unidade na diversidade, o que nos leva a inferir, diante da clareza do texto acima, que nenhuma congregação pode ficar engessada a partir de uma única metodologia de trabalho e evangelização, devendo, em verdade, possibilitar-se a riqueza da pluralidade e variedade dos serviços tantos quantos são os dons espirituais. E mais, a congregação também não pode ficar engessada com a ideia tradicional de um pastor sozinho e sobrecarregado que concentra e desempenha todos os serviços e ministérios. O mais acertado a se dizer é que o ministério da liderança de uma congregação é trabalhar, investir e estimular o exercício dos dons espirituais de cada um, visando o proveito comum, a maturidade do corpo. Neste sentido, trago a colação as palavras de John Stott:
A ideia tradicional que temos de uma igreja local é a de um pastor sobrecarregado, talvez ajudado por um pequeno núcleo de colaboradores dedicados, enquanto a maioria dos membros dá pouca ou nenhuma contribuição à vida ou ao trabalho da igreja. Isto nos lembra mais a imagem de um ônibus (com um motorista e muitos passageiros sonolentos) do que a de um corpo (em que todos os membros são ativos, cada um contribuindo com uma atividade especial para a saúde e a eficiência do todo). Na verdade, eu não duvido de que uma falsa imagem da igreja é uma das principais razões do crescimento do “movimento carismático”. Este movimento é um protesto contra o clericalismo (onde obreiros de tempo integral ocupam o espaço dos leigos), e uma tentativa de liberar os leigos para os papéis de liderança responsável para os quais Deus os dotou (Batismo e Plenitude do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 110).
E, em outra passagem, assim se manifesta:
Os pastores são chamados para serem instrutores, e isto de forma alguma quer dizer que eles devem reservar com ciúmes todos os ministérios que devem ser exercidos para si. Pelo contrário, seu ministério é produzir mais ministério, incentivando outros a exercerem os dons que Deus lhes deu. Somente, então, o outro objetivo será alcançado, que é, novamente, “a edificação do corpo de Cristo”, até que atinja sua unidade e maturidade completas, a “medida da estatura da plenitude de Cristo [Ef 4:12-13] (Op. cit., p. 121).      
A diversidade dos dons e serviços, além de mostrar que a congregação não pode ficar engessada a uma única estrutura rígida de uma metodologia de trabalho, exorta-nos de que não podemos caminhar sozinhos, de que precisamos um do outro e ninguém pode ser tido como descartado, até mesmo porque os dons são fruto da graça de Deus e a graça por natureza é inclusiva (Rm 12:6), além do que a igreja não deve ficar refém de uma hierarquia rígida de liderança em cadeia, mas os líderes e membros devem trabalhar em conjunto para edificar a todos com seus diferentes dons. Ninguém pode achar que tem condições de lidar sozinho com todos os que tiverem sob seus cuidados e tratá-los como uma propriedade particular de seu ministério, mas ser humilde o suficiente para reconhecer que há tipos de serviço que não pode desempenhar e precisará de outras pessoas para ajudá-lo, visando o bem comum. Hoje, a necessidade mais urgente de alguém requer que essa pessoa seja trabalhada por uma pessoa com um determinado tipo de dom, mas, amanhã, a pessoa pode e deve amadurecer e talvez precise ser trabalhada por outra pessoa com outro tipo de dom, tudo segundo o propósito que Deus tem para aquela vida e, assim, o Senhor vai levantando as pessoas para atuar de maneira multiforme, tendo em vista a existência de múltiplas necessidades e o aperfeiçoamento do corpo, de modo que acabamos sendo e, em verdade, devemos ser “ajudantes temporários do Espírito Santo” na vida das pessoas, até mesmo porque é com ciúmes que o Espírito de Deus anseia em ter comunhão conosco (Tg 4:5). Não somos donos de ninguém, apenas instrumentos do Espírito Santo para edificar e amadurecer o corpo e suprir uma necessidade específica, segundo os decretos de Deus, que distribui os dons da maneira que lhe apraz.
No que tange ao desempenho do serviço do Senhor, a Palavra também nos diz que devemos buscar com zelo os melhores dons (1 Co 12:31). E quais são os melhores dons? Qual o critério para dizer quais são os melhores dons? A própria palavra responde: “Assim também vós, já que estais desejosos de dons espirituais, procurai abundar neles para a edificação da igreja” (1 Co 14:12 - ARC). Os melhores dons são aqueles que mais edificam, dentre os quais posso citar o amor acima de todos, a profecia e os dons de ensino (cf. STOTT. Op cit., p. 117).
Paulo dava uma ênfase ao culto inteligível para todos e criticava o uso infantil do dom de línguas na congregação da igreja de Corinto (1 Co 14), bem como vemos uma grande preocupação do apóstolo por todas as suas cartas na questão do ensino da Palavra como algo fundamental para que o corpo de Cristo se desenvolvesse de forma sadia. Moisés também tinha esta preocupação, pelo que disse:
E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre os teus olhos; e as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas (Dt 6:6-9 - ARC).
         E o que dizer de Jesus que ensinava de forma simples e, ao mesmo tempo, profunda com as suas parábolas, atitudes e milagres, os quais eram verdadeiras parábolas dramatizadas que traziam as essências do Reino de Deus para o coração das pessoas.
         O ensino deve ser um dos grandes pilares de uma congregação, sendo que, nos dias de hoje, pela falta ou insuficiência de instrução, o corpo de Cristo fica subnutrido e decadente, proliferando-se todos os tipos de desvio e heresia no meio da igreja, bem como a falta de solidez e maturidade na fé das pessoas, de modo que elas possam discernir as coisas através da Palavra e somente reter o que é bom (1 Ts 5:20-21).
A profecia também é um dos melhores dons, segundo 1 Co 14. Não pode faltar em uma congregação a genuína profecia que edifica o corpo como um todo, a qual Abraão Kuyper assim expõe: “Por profecia, Paulo entendeu pregação inspirada, em que o pregador se sente ungido e impulsionado pelo Espírito Santo” (citado por STOTT. Op cit., p. 106). A palavra nos exorta a não desprezarmos as profecias, mas devemos pô-las à prova, retendo apenas o que é bom (1 Ts 5:20-21).
Animo-me também a dizer que temos de anelar e interceder para que Deus nos capacite com os dons de cura. Em 1 Co 12:9, o apóstolo Paulo fala em “dons de cura” no plural, o que significa que quando se fala de cura, não se refere apenas a cura do físico, mas também a cura do espiritual e do psicológico, das emoções, das memórias penosas, dos traumas, das raízes de amargura e de todas as doenças psicossomáticas que delas advém, tais como os transtornos de ansiedade, a depressão, entre outros. Hoje, muitas pessoas necessitam de um nível de cura profunda em virtude dos relacionamentos partidos, disfuncionais e destrutivos, bem como de todo tipo de abuso, seja ele verbal, físico ou sexual, que provém da destruição e desagregação das famílias, o que causa uma série de deformidades na personalidade e emoções do ser humano. Temos que orar ao Espírito de Deus para que nos capacite com conhecimento e sabedoria para poder ajudar as pessoas de forma adequada, bem como preparar pessoas com esse ofício específico, tais como psicólogos, conselheiros, psiquiatras, obreiros para sarar essas pessoas nesse processo de perdão e cura, que, no fundo, nada mais é do que a renovação da mente por excelência (Rm 12:1-2). Bem como, temos de acreditar no poder da confissão dos pecados e da oração do justo nesse processo de cura: “Confessai, portanto, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16) (neste sentido, pode-se consultar o excelentes trabalhos de David Seamands, tais como A cura das memórias. 2 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2007; A cura para os traumas emocionais. Venda Nova: Betânia, 1984; O poder curador da graça. São Paulo: Vida, 2006, bem como os trabalhos de Leanne Payne, principalmente o livro Imagens partidas. São Paulo: SEPAL, 2001). Em intimidade com o Espírito Santo em oração, enquanto ministramos a outra pessoa em nome de Jesus e, enquanto o ouvimos, ele nos dá a “palavra da sabedoria”, a “palavra do conhecimento”, o “discernimento de espíritos”, bem como a fé sobrenatural e tudo o que é necessário para ver a pessoa sarada, purificada e liberta (cf. PAYNE. Imagens partidas, p. 179). Somente o Espírito Santo pode nos capacitar para manifestar a glória de Deus nesse nível de cura e, para isso, precisamos não só acreditar que Ele pode operar prodígios e maravilhas, mas também depender dEle.
2- Princípios relativos à intercessão:
2.1- A obra de gerar discípulos para Cristo não pode ser desacompanhada de oração incessante, persistente. É papel da igreja como um corpo dinâmico, não só de um discipulador, líder ou conselheiro de forma isolada, de um ministério de intercessão, mas de todo o corpo de Cristo no sentido de fazer o discípulo de Jesus e todo o corpo de Cristo e suas necessidades lembradas diante do Trono do Senhor para que ganhemos no espiritual a concretização da obra de Deus no caráter do discípulo de Jesus (1 Ts 1:2-3), bem como exercendo os dons e serviços, sob a dependência do Espírito Santo, para atingirmos esse fim.
Que a igreja do Senhor possa anelar e interceder para que o Espírito Santo faça essa obra em nós, capacitando-nos para romper a barreira da incredulidade e mergulhar no que o Senhor quer fazer especificamente em cada congregação, capacitando-a com os dons e serviços que Ele soberanamente quer conceder e sob sua dependência. E aí, atrevo-me a dizer que a igreja nos dias de hoje tem dificuldade em compatibilizar a sua “teologia” e práticas com a grande verdade da soberania de Deus e as estratégias de trabalho e evangelização destas congregações acabam sendo “meros eventos” que tentam tapar a glória de Deus, da mesma forma que alguém tenta tapar o sol com a peneira.
2.2- A obra de Deus sempre enfrenta a oposição de satanás (1 Ts 2:18), daí a necessidade da intercessão a fim de que conquistemos a vitória e continuemos edificando o corpo de Cristo na terra, suprindo as necessidades dos crentes, sobretudo as espirituais (1 Ts 3:10).
3- Princípios relativos à liderança:
3.1- A liderança é uma obra de encorajamento do discípulo para que este chegue a um nível de maturidade do caráter de Cristo. Discipulado não é uma obra de dominação ou manipulação, realizada com a imposição de medo, ameaças ou punições para que os liderados façam o que queremos, mas uma obra em que somos canais da graça do Senhor para que o crente encontre a liberdade e verdadeira alegria de ser filho de Deus e tenha sua fé fortalecida (1 Ts 3:2). Liderança é a “habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum” (HUNTER, James C. O Monge e o Executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004, p. 25). Influenciamos discípulos para Cristo, dando um bom testemunho de poder e vida de Deus, assim como o apóstolo Paulo (1 Ts 2:9-10).
3.2- O trabalho da liderança requer as características do amor de Jesus: paciência (1 Ts 5:14), bondade (1 Ts 5:15), humildade, respeito para com as pessoas, abnegação (= olhar os outros a partir das necessidades específicas delas de forma desinteressada e desprendida) (1 Ts 2:7-11), perdão, honestidade (= transparência), compromisso (1 Ts 2:9), coragem (1 Ts 2:2) (obs: para aprofundar o tema do amor e a liderança, consultar HUNTER, James C. Op. cit., p. 72-96).
3.3- A liderança não visa agradar a homens, mas a Deus (1 Ts 2:4-6). Temos que nos libertar do vício de agradar a todos, reforçando a nossa identidade em Deus para que possamos depender integralmente dEle em espírito, alma e corpo (1 Ts 5:23-24). Temos de mudar a nossa autoimagem (= o conceito que temos de nós mesmos em nossa mente e no nosso coração) para que o nosso valor como pessoa não dependa da opinião dos outros, mas da Verdade que Deus fala a nosso respeito. Isso nos liberta do sistema de valor com base no mérito (= se acerto e dou fruto, sou valioso; se erro, falho, peco, sou desvalioso;  essa é uma mentira fabricada no quinto dos infernos, mas que infelizmente condiciona e aprisiona a mente de muitos), do chamado “evangelho do desempenho” e nos deixa livre para experimentar a liberdade da graça de Deus.
3.4- Liderar é servir e não ser servido (1 Ts 2:2, 8-9). A liderança não é um privilégio, mas um encargo, um dever. Liderança não é um privilégio de ostentar um título, de ser tratado como um “marajá espiritual”, mas de desempenhar dons e ministérios para a edificação, em amor e verdade, da igreja, levando-a para a maturidade.
4- Princípios de vida cristã:
4.1- Ter identidade em Cristo, reproduzindo em nossas vidas as virtudes de Deus (1 Ts 1:6), ou seja, crescer no fruto do Espírito.
4.2- As dificuldades (= tribulações) são parte essencial da vida com Deus e Ele as usa para provar e aprovar a nossa fé, para que possamos cumprir a nossa missão de trazer os valores do Reino de Deus, fazendo discípulos para Cristo (1 Ts 2:1, 4 e 3:3).
4.3- A força da tribulação é quebrada pela alegria sobrenatural que o Espírito Santo produz em nós como fruto (1 Ts 1:7).
4.4- A necessidade de um comportamento santo, reto, inclusive livre das imoralidades sexuais (1 Ts 4:1-8).
4.5- O mandamento do amor (1 Ts 4:9-10).
4.6- Deus quer que tenhamos uma mente purificada, livre de culpa (1 Ts 3:13): fala da necessidade de receber o perdão de Deus em nosso coração e não deixar que os erros do nosso passado determinem a nossa caminhada presente e futura. Se Deus nos perdoou, ninguém, nem mesmo nós mesmos, pode nos condenar. Temos de receber o perdão de Deus e nos perdoar e caminhar na liberdade que o Espírito Santo quer nos conceder.
4.7- Deus quer que vigiemos para que não caiamos em pecado e na obra do Tentador (1 Ts 3:5 e 5:6).
4.8- Deus quer façamos uso da armadura espiritual que Ele nos concede para que possamos prosseguir na vida cristã em união com Cristo e herdar a salvação (1 Ts 5:8-11).    
4.9- Diversos deveres: 1 Ts 5:12-28:
12 Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam; 13 e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obras. Tende paz entre vós. 14 Exortamo-vos também, irmãos, a que admoesteis os insubordinados, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos. 15 Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, uns para com os outros, e para com todos. 16 Regozijai-vos sempre. 17 Orai sem cessar. 18 Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. 19 Não extingais o Espírito; 20 não desprezeis as profecias, 21 mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom; 22 Abstende-vos de toda espécie de mal. 23 E o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. 24 Fiel é o que vos chama, e ele também o fará. 25 Irmãos, orai por nós. 26 Saudai a todos os irmãos com ósculo santo. 27 Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os irmãos. 28 A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco.   
5- Princípios de escatologia (= doutrina das últimas coisas): “A ressurreição dos mortos em Cristo e o arrebatamento dos vivos” (1 Ts 4:13-18) e “O Dia do Senhor” (1 Ts 5:1-11).
Tanto o ensino do Velho Testamento, quanto o do Novo Testamento, são muito claros quanto à existência do chamado “Dia do Senhor”, um dia em que Deus virá para julgar vivos e mortos, um dia que marcará a separação do trigo e do joio, dos crentes e dos incrédulos, dos salvos em Cristo e dos não salvos, um dia que marcará o fim da velha criação e o início da nova criação redimida em Cristo e também do cumprimento da pena já imposta contra satanás e seus anjos, bem como o castigo eterno dos incrédulos. Este ensino é uma verdade central do Evangelho de Jesus, a respeito de seu retorno, de sua segunda vinda, como uma das etapas da concretização da obra já conquistada e consumada na cruz, o que requer de nós preparação e vigilância para que não sejamos pegos de surpresa (1 Ts 5:6-11).
A ponderação que se pode fazer quanto aos dias de hoje é que o “evangelho” em grande parte propagado é “manco”, uma vez que pouco se fala na segunda vinda de Cristo, uma verdade fundamental esquecida e negligenciada. Vive-se como se este fato nunca fosse se consumar ou então que acontecerá em um tempo muito distante, passando-se em grande parte a se propagar um “evangelho” que visa satisfazer as necessidades imediatas dos homens aqui na Terra, em que tudo é canalizado para trazer prosperidade material ao homem aqui e agora.
Mesmo naquelas congregações em que não há uma ênfase desesperada na prosperidade material, parece que se vive, em grande parte, um evangelho “triunfalista”, preso e engessado com as ideias de crescimento numérico da igreja, como se isso fosse um sinal de avivamento, ignorando-se por completo os sinais que antecedem a vinda de Jesus.
O ensino do retorno de Jesus e da ressurreição dos mortos para julgamento, como já dito, é uma verdade essencial, é algo concreto que deve ser acolhido como objeto de fé e que exige de nós uma resposta madura no sentido de sermos sóbrios, vigilantes, constantes de caráter nas verdades do Evangelho, perseverantes em cuidar com zelo e amor do nosso relacionamento com Deus, trazendo sobre nós a necessidade de nos examinarmos a nós mesmos constantemente, levando-nos ao arrependimento do que for necessário.
Este ensino requer também de nós uma fé madura no sentido de que não devemos canalizar os nossos esforços nas coisas e nos prazeres deste mundo, mas que a nossa mentalidade deve se afinar com os valores e o tempo da eternidade.
Exige-se de nós o discernimento dos tempos nos quais vivemos. As profecias bíblicas a respeito dos últimos tempos estão se cumprindo e não podemos ser alheios a isto. O amor de muitos está se esfriando por causa da multiplicação da iniquidade (Mt 25:12), os falsos mestres estão se multiplicando com as suas falsas doutrinas, as guerras, as catástrofes e a cada dia as marcas do anticristo serão mais evidentes (obs: para aprofundar este tema, leia 2 Tessalonicenses).
Por fim, esta doutrina deve trazer ao nosso coração um grande consolo no sentido de que um dia viveremos uma vida de comunhão plena com Deus em um novo corpo glorificado e livre para sempre das torturas do pecado e da separação que ele provoca.   
Que a cada dia, leitor, você possa ser sóbrio e vigilante, sendo edificado pela verdade que liberta, provando as profecias, apenas retendo o que é bom, sendo capacitado e consolado pelo Espírito Santo de Deus para semear e colher uma fé madura, bem como desempenhando os dons e ministério que o Senhor na sua soberana graça quer lhe conceder.

Pablo Luiz Rodrigues Ferreira
rugidodaverdade.blogspot.com
pablolrferreira@hotmail.com
             

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A CONSTRUÇÃO DA FIGURA DO LÍDER: UMA REFLEXÃO



Este texto é uma resposta a minha E-pístola A Cura Superficial. Foi escrito por um de meus amigos e companheiros na causa da Verdade do Evangelho, Jonatan Santos. Espero que vocês sejam profundamente edificados.

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Esse texto que aqui escrevo surgiu através da leitura de uma e-pístola de meu amigo Pablo Luiz, chamada “A Cura Superficial”. Especificadamente, acrescentarei minhas considerações apenas ao tópico III. Nele é retratado o discurso da dominação do liderado através da construção da figura do líder como uma autoridade mística e intocável e um retorno indevido aos rudimentos do Velho Testamento.
Pois bem, é inquestionável que a igreja brasileira atual tem aberto os olhos em relação ao “discurso subversivo de dominação do fiel através da criação de toda uma simbologia de misticismo da figura do líder, seja ele pastor, líder de ministério, obreiro, conselheiro, discipulador, etc. A pessoa é levada a crer no líder como uma pessoa infalível e inerrante, "a voz de Deus para sua vida", uma pessoa inquestionável e cuja honra não pode ser exposta e tocada, sob pena de uma dura reprimenda por parte de Deus”. Isso nos implica em perceber se realmente estamos nos padrões da cultura do reino ou de uma cultura religiosa, que se sustenta do homem para o homem e não de Deus para o homem.
Essa questão da simbologia do misticismo leva ao fiel crer incondicionalmente que seu líder é infalível, um super herói que sempre estará ali para socorrê-lo de seus pecados ou fragilidades. Essa visão de líder é extremamente equivocada. Ser líder é ser como Jesus que emanava a graça de Deus por onde ele passava. Não só através de suas parábolas, de suas pregações, dos milagres, mas principalmente pelo modo de se viver, de se transmitir a cultura do reino.
         A liderança de Jesus foi perfeita, pois ele não ensinou sobre liderança nas coisas da terra, no padrão das convicções humanas, mas sim nas celestiais. Ao falarmos de líder, logo imaginamos alguém que devemos obedecer; que devemos estar sujeitos cegamente. Jesus veio quebrar esse paradigma. “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (João 15.14-15).

Jesus foi um líder amigo. Desde o principio quando ele escolheu os doze discípulos já tinha estabelecido em seu coração uma relação de amizade íntima como forma de ensinar, através da amizade emanar a graça sobre a vida deles. Essa estratégia de não discipular uma multidão, mas apenas doze pessoas mostra uma virtude da cultura do reino. A multidão foi ensinada a respeito do reino de Deus, mas os doze conheceriam na essência tal cultura pela convivência com o mestre. A diferença era que a multidão ouvia muito falar de Deus, enquanto que os discípulos não só ouviam, mas experimentavam na pura vitalidade do viver o Reino, através do modo de Jesus vivia e agia. A cultura do reino emanada através do Rei dos Reis foi estabelecida nos doze.
Gosto sempre de falar, caro leitor, que não o conheço ou até posso ter conhecê-lo através de alguns diálogos. E mesmo já tendo dialogado, de fato, não o conheço. Pois quem realmente conhece você é a sua família: seu pai, sua mãe, seus irmãos. Aqueles que convivem com você todos os dias. Eles conhecem quem você realmente é; seus podres, seus defeitos, seus hábitos; conhecem a sua cultura, seu modo de ser, agir e pensar.
           Jesus poderia discipular toda aquela multidão porque Ele conhecia o coração de todos, uma vez que era Deus Filho. Mas para ensinar aos discípulos, ele decidiu criar um grupo de amigos. Onde Jesus seria o referencial de líder, para que os doze futuros líderes ensinassem na essência o que é liderar no Reino, na cultura do Reino. Liderar formando amizades, onde se estabelecesse laços de companheirismo como de uma família. Onde o irmão ajuda o outro. Dessa forma, o líder não se torna uma figura mística, dono das revelações. Mas sim, um referencial de graça e amor, prevalecendo a unidade no discipulado. Coisas que nas igrejas atuais é difícil encontrar. 
          Na ótica da cultura religiosa: “O líder é exaltado como um "super crente", tendo sobre a sua vida uma "unção" que é transferível ao liderado pela obediência, honra e aliança incondicionais. O líder passa, então, a ser visto como a única opção de cura para a vida da pessoa. O liderado é adestrado a obedecer e trabalhar pelo sistema sem questionar, como um cavalo com cabresto. O líder requer a mesma posição de homens santos como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, entre outros profetas do Velho Testamento; querem a "honra de profeta". Outros já se autodenominam de "patriarcas", requerendo o mesmo status de Abraão. Outros querem o status de "apóstolo", não no sentido de um dos possíveis ministérios que Jesus quer nos dar para edificar a sua igreja, mas no sentido de ter o mesmo status de homens como Paulo e Pedro, a fim de se fazerem receptores inquestionáveis da "revelação" de Deus para a vida dos fiéis”. 
         Essa questão de serem os donos da revelação é algo que deve ser abolido urgentemente das igrejas. A liderança deve buscar sabedoria e graça em Deus para que tais coisas não aconteçam. Um exemplo, típico disso é quando um discípulo peca e urgentemente já vai ligando para seu líder, contar seus pecados e receber a revelação do líder para uma cura imediata do peso do pecado. Em contrapartida, o líder libera a palavra, a "revelação" e tudo fica bem. Há um grande erro nisso tudo. Você consegue enxergá-lo? Um líder de verdade perguntaria para o discípulo quando ele ligasse: “Você já conversou com Deus, sobre sua queda? Já pediu perdão para ele? O que foi que ele te disse?”.
Esse líder está ensinando seu discípulo a não depender dele, a olhar para Deus, a buscar em Deus a cura de suas fragilidades. Esse é um líder amigo que direciona seu liderado a uma comunhão intensa com Deus. Ensina-o a entrar no lugar que Deus criou para estamos, é neste lugar que a cultura do Reino é entronizada em nossas vidas.
Um líder amigo, diferente do líder religioso, deseja que seu liderado seja tão usado por Deus quanto ele, ou até mais que ele. Um dos episódios mais utilizados para sustentar todo um esquema de dependência dos líderes espirituais esta na pergunta: “mas a unção de Elias não foi transferida para Eliseu? E ele não a recebeu em virtude de ser aquele que andava mais perto de Elias do que todos os outros discípulos de profeta? (2 Reis 2). A pessoa é condicionada a entender que a mesma unção que está sobre o líder estará sobre o liderado e este tem de obedecê-lo sem reservas para prosperar e receber a unção”. 
        Esse esquema de dependência aprisiona o crescimento do discípulo e, muitas vezes, prende os dons que Deus já deu. Devemos prosperar na unção que Deus nos dá, na unção que vem dos céus. Cada um dos discípulos era diferente e Jesus os direcionava segundo os dons que eles tinham. Judas ficou com a parte financeira, a parte administrativa do pensar: nas despesas, nos custos, no calcular, no organizar. Já Pedro foi treinado para ser o cabeça, tomar decisões; tinha espírito de liderança firmado na rocha, nos princípios da cultura do Reino. Jesus, como um líder amigo, direcionava cada um deles para frutificarem naquilo que queimava no coração de cada um.
           Nesse esquema de dependência de líderes: “Cria-se, então, todo um sistema de hierarquia rígida e inquestionável para fazer com que uma determinada estrutura religiosa se sustente. Com certeza, a unção de Elias foi transferida para Eliseu, mas a razão de tal transferência não foi a vontade do homem. Não foi algo que aconteceu por causa da aliança que eles tinham. A transferência não se deu por causa do esforço humano. Foi algo determinado pelo eterno propósito de Deus, o qual de antemão, desde antes da fundação do mundo, estabeleceu que assim o fosse. Deus tinha um propósito na aliança entre Eliseu e Elias, e a transferência da unção ocorreu já que o Senhor tinha em vista a continuidade do mesmo tipo de ministério desempenhado por Elias e escolheu de forma soberana o vaso que seria usado para tal, qual seja Eliseu”.
          Eliseu, sem dúvidas, honrava Elias como líder, da mesma forma que os doze discípulos honravam Jesus como líder. Assim, honrar é demonstrar profundo respeito pelo semelhante. É a forma de tratamento que devotamos às pessoas que respeitamos. Logo, honrar não significa nos submetermos a uma liderança a ponto de nos cegarmos espiritualmente, seguindo um esquema de dependência. Mas, sendo amigos, a ponto de chegar a um objetivo: viver (líder e liderado) a cultura do Reino, não como servos cegos, mas como amigos que ensinam uns aos outros ouvirem a voz de Deus, para que se edifiquem. Um braço ajudando a perna, a perna ajudando o pescoço. Somos um corpo. “já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (João 15.14-15).
Portanto, na lei você obedece e recebe o benefício; na graça você recebe o benefício e passa a obedecer. Toda relação de líder e liderado deve ser baseado na Graça.
        
Abraços fraternos,

Jonatan Santos
Outubro de 2011