ESCREVENDO CARTAS NA PRESENÇA DE DEUS: COMO UTILIZAR A ESCRITA EXPRESSIVA, A ORAÇÃO E A ESTIMULAÇÃO AUDITIVA BILATERAL PARA ELABORAR TRAUMAS DE REJEIÇÃO
Desde fevereiro de 2026, quase todos os dias, tenho escrito cartas em um caderno para elaborar experiências dolorosas de rejeição, vergonha e perda relacional. Algumas cartas são dirigidas diretamente a Deus; outras são escritas para a pessoa que me feriu ou que preciso perdoar. Mesmo estas últimas, porém, continuam sendo uma forma de oração, porque não escrevo sozinho: antes de começar, digo expressamente a Deus que estou escrevendo com Ele ao meu lado, vendo-me e ouvindo-me.
Enquanto escrevo, utilizo uma estimulação auditiva bilateral, isto é, sons que se alternam entre o ouvido esquerdo e o direito e que vêm de terapias das quais fui paciente, quais sejam o EMDR e o Brainspotting. Em algumas ocasiões, já inicio a carta sabendo qual lembrança preciso enfrentar. Em muitas outras, contudo, não tenho nada específico em mente. Começo apenas contando a Deus o que estou sentindo no corpo naquele momento e, conforme escrevo, surgem emoções, imagens, crenças negativas e memórias que eu não estava procurando conscientemente.
Aos poucos, aquilo que antes parecia desorganizado começa a adquirir palavras, sequência e sentido. Entro em contato com emoções muito fortes, choro e me permito sentir aquilo que durante muito tempo esteve escondido sob a vergonha. Em algum ponto, a dor costuma começar a ceder. Então percebo que sobrevivi ao que aconteceu, que aquela dor não precisa permanecer para sempre e que posso aproximar crenças positivas que me ofereçam amparo.
Depois, compartilho as cartas com minha psicóloga e esse compartilhamento é essencial, porque não deixa a experiência encerrada apenas dentro de mim. Ao permitir que uma pessoa segura conheça o que escrevi, começo a experimentar que posso ser visto por inteiro sem ser novamente rejeitado.
Este texto descreve o que faço e procura explicar a importância de cada elemento à luz dos materiais que estudei. Ele não apresenta um protocolo científico já validado, não substitui a psicoterapia e não deve ser chamado de EMDR. Trata-se de uma prática pessoal que reúne componentes sobre os quais existem diferentes níveis de fundamentação científica, clínica, relacional e espiritual.
O significado de alguns termos
Escrita expressiva
A escrita expressiva consiste em colocar no papel pensamentos e sentimentos profundos relacionados a experiências difíceis. Não é apenas contar o que aconteceu. É escrever também sobre como fui afetado, o que senti, o que passei a acreditar sobre mim mesmo e de que maneira aquela experiência continua presente em meu corpo e em minhas relações.
Os estudos de Pennebaker e de outros pesquisadores mostram que escrever sobre experiências traumáticas ou emocionalmente perturbadoras pode produzir benefícios para algumas pessoas, embora seja comum ocorrer um aumento momentâneo de tristeza e desconforto durante a escrita. Os resultados não são iguais para todos e não significam que escrever, por si só, cure qualquer trauma [Pennebaker, Kiecolt-Glaser & Glaser, 1988; Smyth, 1998; Baikie & Wilhelm, 2005].
Estimulação bilateral
A estimulação bilateral é um estímulo sensorial que se alterna entre os dois lados do corpo. Ela pode ser feita por movimentos dos olhos, toques alternados ou sons que chegam sucessivamente ao ouvido esquerdo e ao direito.
No meu caso, utilizo a modalidade auditiva porque posso continuar olhando para o caderno e escrevendo normalmente enquanto os sons se alternam nos fones.
EMDR
EMDR é a sigla em inglês de Eye Movement Desensitization and Reprocessing, expressão traduzida como Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares. Trata-se de uma psicoterapia completa, organizada em oito fases e conduzida por profissional capacitado. A estimulação bilateral é apenas uma parte desse tratamento.
Durante o EMDR, o terapeuta ajuda a pessoa a trabalhar uma lembrança relacionada a determinada imagem, crença negativa, emoção e sensação corporal. Depois de ativado esse conjunto, a estimulação bilateral acompanha o processamento das associações que surgem.
O fato de eu utilizar sons alternados enquanto escrevo não significa que esteja realizando EMDR em mim mesmo. David Grand afirma expressamente que a estimulação bilateral, sem a preparação, a avaliação da memória e as demais fases do tratamento, não deve ser confundida com a terapia EMDR. O autor admite que a utilização de uma sensação corporal associada à estimulação bilateral pode ser considerada uma derivação ou aplicação parcial de elementos do EMDR, mas não o protocolo propriamente dito [Grand, Definindo e Redefinindo EMDR].
Memória-alvo
Memória-alvo é a lembrança perturbadora que está sendo trabalhada. Em algumas cartas, escolho conscientemente essa memória antes de começar. Em outras, ela só aparece depois que inicio a escrita a partir de uma sensação corporal ou emoção presente. Nesses casos, não escolho previamente a memória-alvo; descubro-a enquanto escrevo.
Crenças negativas e positivas
Uma crença negativa é uma conclusão dolorosa a respeito de mim mesmo que ficou associada à experiência. Pode assumir formas como “não sou digno de amor”, “há algo errado comigo”, “eu não importo”, “estou sozinho” ou “serei rejeitado se me conhecerem verdadeiramente”.
Uma crença positiva é uma compreensão mais adaptativa e compatível com o presente: “eu sobrevivi”, “tenho valor”, “não sou culpado pelo que fizeram comigo”, “posso me proteger”, “Deus está comigo” ou “posso ser conhecido sem ser novamente rejeitado”.
Processar e ressignificar
Quando digo que estou processando ou ressignificando uma experiência, não quero dizer que estou apagando a lembrança, modificando os fatos ou decidindo que aquilo deixou de ser grave. Quero dizer que a experiência começa a encontrar um lugar mais integrado em minha história.
O acontecimento permanece verdadeiro, mas deixa gradualmente de existir apenas como uma mistura desorganizada de imagens, sensações, emoções e crenças negativas. Consigo reconhecer melhor o que aconteceu, o que perdi, o que senti e aquilo em que passei a acreditar por causa da experiência.
Meu passo a passo
1. Recolho-me ao meu quarto e protejo aquele tempo contra interrupções
Quando decido escrever, vou para o meu quarto e procuro garantir que ninguém me perturbe, trancando-me. Esse recolhimento é importante porque algumas das coisas que surgem são muito íntimas e dolorosas. Para ser realmente honesto, preciso sentir que não terei de interromper uma frase, esconder o choro ou mudar o que estou escrevendo porque alguém entrou no ambiente.
Permaneço ali por aproximadamente uma hora e não sigo um cronômetro rígido e não tenho pressa de terminar. A duração não é uma meta a ser cumprida, mas o espaço que normalmente reservo para que a escrita possa se desenvolver no próprio ritmo.
Algumas cartas avançam rapidamente; outras demoram até alcançar aquilo que estava escondido. Por isso, não começo exigindo que, ao final daquela hora, tudo esteja compreendido, perdoado ou resolvido. Meu compromisso não é chegar depressa a uma conclusão, mas permanecer com honestidade diante daquilo que surgir.
A privacidade favorece uma escrita menos censurada. Nos estudos clássicos de escrita expressiva, os participantes eram convidados a escrever sobre seus pensamentos e sentimentos mais profundos, sem preocupação com estilo, gramática ou julgamento externo. Embora essas pesquisas tenham utilizado tempos menores do que o que pratico, elas ajudam a compreender a importância de um espaço no qual a pessoa possa escrever sem precisar se defender do olhar de terceiros [Pennebaker, Kiecolt-Glaser & Glaser, 1988; Baikie & Wilhelm, 2005].
2. Escrevo sempre no mesmo caderno
Todas as cartas são escritas à mão e guardadas no mesmo caderno. No início, ele era apenas o lugar físico onde eu registrava o que estava sentindo. Com o passar dos meses, porém, começou a representar muito mais.
Foi tanta coisa que escrevi, processei e ressignifiquei naquele caderno que, em determinado momento, percebi que ele havia se tornado um lugar seguro interno. Quando o abro, sei que estou entrando em um espaço no qual posso me comunicar com Deus, expor-me diante Dele e de mim mesmo e dizer a verdade sem precisar me proteger por meio do silêncio.
O caderno é externo porque posso tocá-lo, abri-lo e reler aquilo que escrevi. Ao mesmo tempo, tornou-se interno porque passou a representar uma experiência de segurança que já existe dentro de mim. Não é um lugar no qual a dor está ausente, mas um lugar no qual consigo entrar em contato com a dor e ainda assim me sentir protegido.
Nos materiais sobre EMDR, o “lugar seguro” é descrito como um recurso que ajuda a pessoa a acessar sentimentos de segurança, calma ou coragem antes ou durante o trabalho com experiências perturbadoras. Meu caderno não foi instalado formalmente por meio do protocolo do EMDR. Ainda assim, pela repetição de experiências de honestidade, oração, sobrevivência emocional e compartilhamento terapêutico, ele adquiriu para mim uma função semelhante [Grand, Definindo e Redefinindo EMDR; Maxfield, Kaslow & Shapiro, EMDR e Terapia Familiar; Carvalho, Cure Seu Cérebro, Cure Seu Corpo].
3. Utilizo a estimulação auditiva bilateral enquanto escrevo
Durante a escrita, coloco os fones e utilizo sons que se alternam entre o ouvido esquerdo e o direito. A estimulação auditiva me permite continuar escrevendo normalmente, porque não preciso acompanhar visualmente nenhum movimento nem retirar as mãos do caderno.
Minha hipótese pessoal é que essa estimulação pode acompanhar o processo associativo enquanto escrevo, auxiliando a dessensibilização daquilo que surge e favorecendo alguma forma de reprocessamento. Entretanto, essa combinação específica de escrever cartas sobre experiências dolorosas enquanto se utiliza estimulação auditiva bilateral não foi testada nos materiais que estudei como um método completo.
O que esses materiais permitem afirmar é que a estimulação auditiva é uma das modalidades utilizadas no EMDR e que, durante o processamento, podem surgir associações entre lembranças, imagens, sensações, emoções e crenças. Eles não permitem concluir que o som alternado, utilizado durante a escrita, produza sozinho o mesmo efeito de uma sessão de EMDR [Croitoru, A Revolução EMDR; Grand, Definindo e Redefinindo EMDR; Maxfield, Kaslow & Shapiro, EMDR e Terapia Familiar].
Por essa razão, apresento a estimulação auditiva como um elemento importante da minha experiência e como parte da hipótese que desejo investigar, não como uma técnica cuja eficácia específica já tenha sido demonstrada.
4. Coloco-me conscientemente na presença de Deus
Antes de começar a desenvolver o conteúdo da carta, oro e digo expressamente a Deus que estou escrevendo com Ele ao meu lado. Não quero apenas pensar abstratamente que Deus conhece o que aconteceu; quero reconhecer conscientemente Sua presença durante o próprio ato de escrever.
Posso dizer:
“Deus, eu vou escrever esta carta com o Senhor ao meu lado, vendo-me e ouvindo-me. Quero ser honesto a respeito do que aconteceu e do que existe dentro de mim.”
Quando a carta é dirigida diretamente a Deus, toda a escrita assume a forma de uma oração. Quando é dirigida à pessoa que me feriu, continua sendo uma oração, porque falo simbolicamente com aquela pessoa sem deixar de permanecer diante de Deus.
Nesse segundo caso, a carta possui dois destinatários. Diante de quem me ofendeu, recupero a voz que perdi e consigo dizer o que aconteceu, como fui afetado e o que precisava ter recebido. Diante de Deus, deixo de carregar essa dor sozinho e permito que aquilo que estava escondido seja visto.
A ciência não pode confirmar a realidade espiritual da presença de Deus. Esse é um conteúdo da minha fé. Os materiais estudados, entretanto, ajudam a compreender por que espiritualidade, consciência, narrativa pessoal e experiência relacional podem participar da maneira como alguém organiza e atribui sentido à própria história [Thompson, The Soul of Shame; Conexões para a vida].
5. Posso começar por uma lembrança específica
Algumas vezes, entro no quarto já sabendo qual experiência preciso enfrentar. Há uma lembrança de rejeição, uma pessoa ou um acontecimento que está especialmente presente naquele dia. Nesse caso, começo a carta falando sobre isso.
Não escrevo somente uma descrição fria dos fatos. Procuro registrar como vivi aquela experiência: o que aconteceu, o que senti, como meu corpo reagiu, o que eu queria ter dito e aquilo que passei a acreditar sobre mim mesmo.
Ao escrever, a lembrança deixa de permanecer apenas como uma experiência interna confusa. As palavras começam a criar uma sequência e a relacionar acontecimentos, emoções e significados. Isso não modifica o passado, mas pode modificar a maneira como ele está organizado em minha história.
A literatura sobre escrita expressiva propõe justamente que transformar experiências emocionais em linguagem pode ajudar a organizá-las e assimilá-las. Baikie e Wilhelm observam que a simples descarga emocional provavelmente não explica os resultados; a elaboração cognitiva e a construção de uma narrativa coerente parecem participar do processo [Pennebaker, Kiecolt-Glaser & Glaser, 1988; Baikie & Wilhelm, 2005; Smyth, 1998].
6. Muitas vezes, começo apenas pelas sensações que estou vivendo naquele momento
Nem sempre tenho uma lembrança específica em mente. Muitas cartas começam sem que eu saiba exatamente sobre o que preciso escrever. Nesses dias, começo contando a Deus como estou me sentindo no corpo.
Posso escrever que estou com um aperto no peito, uma sensação de vazio, um peso, um nó na garganta ou alguma outra experiência corporal que esteja presente. Não começo tentando explicar a sensação. Apenas a reconheço e escrevo honestamente sobre ela.
Conforme permaneço escrevendo, podem surgir uma emoção, uma frase, uma imagem, uma crença negativa ou uma lembrança. Às vezes, a conexão se torna clara de imediato; em outras ocasiões, escrevo durante algum tempo antes de compreender por que aquela memória apareceu.
Quando digo que essas coisas “surgem do nada”, descrevo como o processo é vivido por mim: não estava procurando conscientemente aquela lembrança, não havia decidido escrever sobre ela e, ainda assim, ela apareceu. Em termos mais precisos, é possível que a sensação corporal tenha ativado uma rede de associações que ainda não havia chegado à consciência de forma organizada.
Esse movimento encontra correspondência direta nos materiais de EMDR a que tive acesso. A Revolução EMDR explica que, durante o processamento, as associações podem conduzir a pessoa para acontecimentos passados ou futuros, para detalhes esquecidos e para diferentes canais da experiência — cognitivo, emocional, sensorial e físico. A obra mostra, inclusive, situações nas quais uma imagem aparentemente sem relação com o problema conduz depois a uma lembrança ligada à crença negativa que estava sendo trabalhada [Croitoru, A Revolução EMDR].
David Grand também descreve que enfatizar sensações corporais, emoções e experiências sensoriais pode colocar em movimento um processamento que estava paralisado. Em um dos relatos de Definindo e Redefinindo EMDR, a própria escrita aparece como um contexto no qual a pessoa procura “deixar algumas coisas surgirem” e acaba reconhecendo um padrão de busca de aprovação que até então operava de maneira não consciente [Grand, Definindo e Redefinindo EMDR].
Bergmann, por sua vez, explica que a memória implícita nem sempre se apresenta inicialmente como uma lembrança consciente. Ela pode manifestar-se como estado emocional, reação corporal, expectativa ou comportamento moldado por experiências anteriores. Isso oferece uma base para compreender por que o corpo pode “saber” algo antes que eu consiga contar a história em palavras [Bergmann, A Neurobiologia do Processamento de Informação e seus Transtornos].
7. Acompanho aquilo que surge e permito que a escrita encontre seu próprio caminho
Quando aparece uma lembrança, imagem ou pensamento, procuro não descartá-lo simplesmente porque parece estranho ou sem relação com o que estava escrevendo. Registro o que surgiu e continuo acompanhando o fluxo.
Não preciso compreender imediatamente todas as conexões. Às vezes, uma lembrança aparentemente pequena conduz a uma experiência mais antiga; em outras ocasiões, diferentes episódios se ligam pela mesma emoção ou pela mesma crença negativa. O elo entre eles pode ser a sensação de não ter valor, de não ser escolhido, de estar sozinho ou de não poder confiar em ninguém.
Esse modo de acompanhar o que emerge se aproxima da orientação apresentada em A Revolução EMDR: durante o processamento, a pessoa observa as associações sem tentar controlá-las ou julgá-las antecipadamente como relevantes ou irrelevantes. A conexão pode se tornar visível apenas depois [Croitoru, A Revolução EMDR].
A escrita participa desse processo porque registra aquilo que, de outro modo, poderia aparecer apenas por alguns instantes e desaparecer novamente. Quando releio a sequência, consigo perceber relações entre sensações, lembranças, emoções e crenças que antes pareciam isoladas.
8. Procuro escrever com a maior honestidade que consigo sustentar
O centro do meu processo não é a intensidade, mas a honestidade. Não quero escrever aquilo que parece bonito, aceitável ou espiritualmente correto. Quero escrever aquilo que encontro dentro de mim.
Se sinto raiva, escrevo sobre a raiva. Se tenho medo, admito o medo. Se estou triste, não tento substituir imediatamente a tristeza por uma frase positiva. Se tenho vergonha de ainda desejar o amor ou a aprovação de quem me rejeitou, coloco isso no papel. Se estou decepcionado com Deus ou com dificuldade de perceber Sua presença, também posso dizer isso a Ele.
A formulação que melhor resume esse cuidado é: não é a máxima intensidade que favorece o processamento, mas a máxima honestidade que consigo sustentar sem perder regulação, agência e orientação para o presente.
Isso significa que não preciso procurar a experiência mais dolorosa possível, produzir deliberadamente uma crise ou tomar o sofrimento como medida de sucesso. Ao mesmo tempo, não quero interromper a escrita apenas porque comecei a chorar ou porque determinada emoção se tornou desconfortável.
A escrita expressiva pode aumentar momentaneamente a tristeza e a perturbação. Os estudos mostram que isso é comum, mas também indicam que o desconforto imediato não é, por si só, o mecanismo da mudança nem uma garantia de benefício posterior [Smyth, 1998; Baikie & Wilhelm, 2005].
Os trabalhos sobre supressão ajudam a compreender outro aspecto dessa honestidade: o esforço persistente de afastar pensamentos e emoções pode ter efeitos psicológicos e fisiológicos. Isso não significa que revelar tudo seja sempre curativo, mas sugere que deixar de gastar energia tentando expulsar uma experiência da consciência pode abrir espaço para elaborá-la [Petrie, Booth & Pennebaker, 1998; Pennebaker, Kiecolt-Glaser & Glaser, 1988].
9. Permito-me sentir e chorar
Quando entro em contato com o conteúdo traumático, frequentemente sinto emoções muito fortes. Choro bastante, lembro-me de como fui ferido e permito que a tristeza, a ira, o medo e a vergonha tenham voz.
Não escrevo sobre essas emoções como alguém que observa tudo de longe. Durante a carta, consigo senti-las e, em alguma medida, reviver aspectos da experiência. A diferença é que agora posso dar palavras ao que antes estava apenas no corpo, na imagem ou na crença negativa.
O choro não é um objetivo que tento alcançar, mas também não é algo que procuro impedir. Quando ele aparece, deixo que acompanhe a escrita. Muitas vezes, é justamente enquanto choro que reconheço a dimensão da perda e percebo o quanto tentei esconder de mim mesmo.
The Soul of Shame descreve a vergonha como uma experiência que envolve o corpo e as emoções antes de ser organizada verbalmente. A obra mostra que proibir pensamentos negativos não elimina os sentimentos que os sustentam; é necessário trazer a experiência para um espaço no qual ela possa ser reconhecida e recebida [Thompson, The Soul of Shame].
10. Identifico as crenças negativas que a experiência deixou em mim
Conforme escrevo, começo a perceber que a lembrança não contém apenas fatos e emoções. Ela também carrega conclusões a respeito de quem sou.
Podem surgir crenças como:
“Não sou digno de amor.”
“Eu não importo.”
“Há alguma coisa errada comigo.”
“Se me conhecerem verdadeiramente, irão embora.”
“Minhas necessidades são excessivas.”
“Eu fui rejeitado porque não tenho valor.”
“Estou sozinho.”
“Não posso confiar em ninguém.”
Quando escrevo essas crenças, não estou afirmando que sejam verdadeiras. Estou reconhecendo que elas passaram a funcionar dentro de mim como se fossem verdadeiras.
No modelo de processamento adaptativo de informações, experiências perturbadoras podem permanecer ligadas a imagens, emoções, sensações corporais e crenças negativas. Quando uma situação atual ativa essa rede, toda a experiência pode voltar, mesmo que a pessoa ainda não reconheça conscientemente a lembrança relacionada [Bergmann, A Neurobiologia do Processamento de Informação e seus Transtornos; Maxfield, Kaslow & Shapiro, EMDR e Terapia Familiar].
Os livros de Caroline Leaf também enfatizam a importância de observar e registrar pensamentos recorrentes para que eles possam ser examinados e reorganizados. Essas obras são fontes de divulgação e proposição prática, e não possuem o mesmo valor probatório dos estudos experimentais anexados, mas dialogam com minha percepção de que a escrita torna visíveis padrões que antes operavam de maneira automática [Leaf, Organize sua Desordem Mental; Leaf, Switch On Your Brain].
11. Procuro a perda relacional que está escondida debaixo da vergonha
Depois de reconhecer a crença negativa, consigo perceber que muitas vezes existe um luto por baixo da vergonha.
Quando alguém importante me rejeita, é fácil transformar “essa pessoa não conseguiu me amar ou me oferecer aquilo de que eu precisava” em “eu fui rejeitado porque há alguma coisa errada comigo”. A vergonha desloca o problema para minha identidade e me mantém tentando descobrir o que deveria mudar em mim para finalmente ser escolhido.
Durante a carta, começo a reconhecer o que realmente perdi: a relação que desejava, a proteção que não recebi, a possibilidade de ser conhecido, o futuro relacional que imaginei ou a confiança que não pôde ser preservada.
Nesse momento, a escrita deixa de ser apenas uma exposição da ofensa e se torna também um trabalho de luto. Posso chorar não só pelo que a pessoa fez, mas por aquilo que ela não conseguiu ser para mim.
A literatura clínica sobre vergonha e apego descreve justamente essa relação entre autocondenação, medo de abandono e dificuldade de reconhecer a perda. Em The Soul of Shame, a vergonha é apresentada como uma força que leva a pessoa a se esconder e a acreditar que não pode ser conhecida. Em Shame and Attachment Loss, o autor descreve situações nas quais a vergonha impede ou adia o luto pela perda relacional [Thompson, The Soul of Shame; Nicolosi, Shame and Attachment Loss].
Abaixo, em um apêndice, eu coloquei informações adicionais sobre o que significa fazer o luto na prática.
12. Percebo o momento em que a dor começa a ceder
Em muitas cartas, chega um ponto em que a dor, depois de ser sentida e expressa, começa a diminuir. Ela talvez não desapareça completamente, mas deixa de ocupar todo o espaço.
Nesse momento, percebo que consegui entrar em contato com a lembrança e sobreviver àquilo que senti. A experiência continua sendo dolorosa, mas já não parece ter a mesma força para me manter preso dentro dela.
Começo a compreender que a dor pode ir embora sem que isso diminua a gravidade do que aconteceu. Não preciso continuar sofrendo com a mesma intensidade para provar que fui ferido, nem preciso conservar a vergonha para manter viva a importância da relação que perdi.
Não escrevo com pressa de alcançar esse ponto. Algumas cartas chegam até ele; outras deixam questões abertas que continuarei elaborando posteriormente. O próprio fato de eu reservar aproximadamente uma hora, sem exigência de terminar, permite que a escrita acompanhe o ritmo real da experiência.
13. Aproximo crenças positivas que me sirvam de amparo
Quando a dor começa a ceder — ou mesmo quando estou atravessando seu ponto mais intenso —, podem surgir crenças positivas que me ajudam a permanecer amparado.
Posso reconhecer:
“Eu sobrevivi.”
“Eu continuo tendo valor.”
“Não sou aquilo que fizeram comigo.”
“Não fui responsável pela incapacidade do outro de me amar.”
“Minha necessidade de vínculo não é vergonhosa.”
“Deus continua comigo.”
“Posso ser conhecido sem ser novamente rejeitado.”
Não uso essas crenças para impedir o choro ou substituir artificialmente a tristeza. Elas não servem para dizer que tudo está bem quando ainda não está. Sua função é oferecer uma verdade mais ampla, capaz de coexistir com a dor e impedir que a crença negativa continue sendo a única interpretação disponível.
No protocolo de EMDR, crenças negativas e positivas são elementos expressamente relacionados à memória trabalhada. Durante o processamento, a crença positiva pode adquirir maior credibilidade e posteriormente ser fortalecida. Minha prática possui uma semelhança com esse movimento, mas não reproduz formalmente as fases do EMDR [Croitoru, A Revolução EMDR; Grand, Definindo e Redefinindo EMDR; Maxfield, Kaslow & Shapiro, EMDR e Terapia Familiar].
14. Quando escrevo para quem me feriu, recupero minha voz e trabalho o perdão
Quando a carta é dirigida à pessoa que me ofendeu, consigo dizer aquilo que talvez nunca tenha podido falar diretamente. Posso nomear a ofensa, a raiva, a tristeza, o que eu precisava e as consequências que aquela experiência produziu.
Ao mesmo tempo, continuo consciente de que Deus está ao meu lado. Por isso, a carta dirigida ao outro também permanece sendo uma oração: falo com a pessoa, mas faço isso diante de Deus.
O perdão, quando aparece, não precisa apagar a responsabilidade do outro nem transformar a ofensa em algo aceitável. Antes de perdoar, preciso reconhecer o que aconteceu, sentir a dor, enfrentar a vergonha e fazer o luto daquilo que perdi. Caso contrário, o perdão pode se tornar apenas outra maneira de silenciar minha experiência.
A carta devolve-me a voz diante de quem me feriu; a oração impede que eu permaneça espiritualmente sozinho enquanto falo.
15. Compartilho as cartas com minha psicóloga
Depois de escritas, compartilho as cartas com minha psicóloga. Esse compartilhamento não é um detalhe secundário, porque a vergonha é, em sua origem e em seus efeitos, profundamente relacional.
A vergonha me diz que, se alguém conhecer aquilo que existe dentro de mim — minhas necessidades, minha raiva, meu medo, minhas contradições e minhas fragilidades —, essa pessoa irá embora. Quando minha psicóloga recebe a carta, conhece o que escrevi e continua em relação comigo, começo a viver uma experiência diferente daquela que o trauma me ensinou a esperar.
A escrita retira a experiência da confusão interna e a coloca no papel; o compartilhamento retira a carta do isolamento e a coloca dentro de uma relação segura. Assim, não apenas conto minha história: experimento ser conhecido sem ser novamente rejeitado.
The Soul of Shame insiste que a vergonha prospera no segredo e no isolamento, enquanto a cura relacional exige que a pessoa seja conhecida por alguém capaz de permanecer presente. Conexões para a vida também relaciona narrativa pessoal, consciência, corpo, espiritualidade e vínculo, mostrando a importância de uma história ser recebida em relação, e não apenas organizada solitariamente [Thompson, The Soul of Shame; Conexões para a vida].
Os livros de Esly Carvalho igualmente enfatizam que experiências antigas podem permanecer ativas em diferentes papéis ou partes internas e que a reparação envolve uma presença relacional capaz de reconhecer, confirmar e acolher aquilo que ficou desorganizado [Carvalho, Curando a Galera que Mora Lá Dentro; Carvalho, Cure Seu Cérebro, Cure Seu Corpo].
16. A repetição transformou o caderno em um lugar seguro dentro de mim
Venho fazendo essas cartas desde fevereiro de 2026, quase diariamente. Ao longo desse tempo, não escrevi apenas sobre uma lembrança, mas sobre muitas experiências, crenças, perdas e aspectos de mim mesmo.
Repetidas vezes, entrei no quarto, protegi aquele tempo, abri o mesmo caderno, coloquei os sons alternados, reconheci a presença de Deus, escrevi com honestidade, chorei, encontrei crenças negativas, fiz o luto de perdas relacionais, percebi a dor ceder, aproximei crenças positivas e compartilhei o que havia escrito com minha psicóloga.
Foi essa repetição que transformou o caderno em um lugar seguro. A segurança não decorre apenas do objeto, mas da história que ele passou a carregar. Ele guarda a lembrança de que posso entrar em contato com conteúdos dolorosos, ser honesto e continuar existindo; posso falar com Deus e não permanecer espiritualmente sozinho; posso ser conhecido por outra pessoa e não ser novamente rejeitado.
Por isso, sinto que estou saindo da solidão emocional. Aquilo que antes permanecia fragmentado e escondido começa a se integrar à minha história, à minha fé, ao meu corpo e às minhas relações.
Como compreendo o que está acontecendo
Inicialmente, pensei nesse processo como se a escrita estivesse recrutando a inteligência lógica do hemisfério esquerdo para organizar imagens traumáticas guardadas no hemisfério direito e, assim, alcançar áreas mais primitivas do cérebro. Hoje, considero mais prudente formular a hipótese de outro modo.
Memórias, emoções, linguagem, percepção corporal e construção autobiográfica não estão confinadas a um único hemisfério ou a uma região isolada. O processamento de informações ocorre por meio de redes distribuídas e interligadas. Memórias implícitas podem aparecer inicialmente como sensações corporais, reações emocionais, expectativas e comportamentos, enquanto a escrita oferece uma possibilidade de transformá-las em narrativa consciente [Bergmann, A Neurobiologia do Processamento de Informação e seus Transtornos].
Assim, minha hipótese é que a escrita expressiva possa favorecer a integração funcional de dimensões cerebrais, corporais, emocionais e autobiográficas. A oração acrescenta a dimensão espiritual e relacional da presença de Deus; o compartilhamento com minha psicóloga acrescenta uma experiência humana de ser conhecido e acolhido; e a estimulação auditiva bilateral pode acompanhar o fluxo associativo, embora sua contribuição específica durante a escrita ainda precise ser investigada.
Não se trata, portanto, de um hemisfério consertando o outro, mas de uma experiência que começa a encontrar conexão entre corpo, emoção, memória, linguagem, significado, espiritualidade e relacionamento.
O que os materiais permitem sustentar
Os estudos científicos que tive acesso sustentam que a escrita expressiva pode produzir benefícios emocionais, físicos e funcionais para algumas pessoas, embora os efeitos sejam variáveis e não autorizem promessas universais de cura [Pennebaker, Kiecolt-Glaser & Glaser, 1988; Smyth, 1998; Baikie & Wilhelm, 2005].
Os materiais de EMDR sustentam que lembranças perturbadoras podem estar ligadas a imagens, emoções, sensações corporais e crenças negativas; também descrevem o surgimento de associações espontâneas durante o processamento e reconhecem a estimulação auditiva como uma forma de estimulação bilateral [Croitoru, A Revolução EMDR; Grand, Definindo e Redefinindo EMDR; Maxfield, Kaslow & Shapiro, EMDR e Terapia Familiar].
Os materiais sobre processamento de informações cerebrais ajudam a compreender por que experiências passadas podem se manifestar como estados corporais e emocionais antes que sejam reconhecidas como lembranças conscientes [Bergmann, A Neurobiologia do Processamento de Informação e seus Transtornos].
Os livros sobre vergonha, apego e espiritualidade oferecem uma formulação clínica e relacional para compreender o medo de ser conhecido, o isolamento produzido pela vergonha, o luto escondido sob a autocondenação e a importância de continuar em relação enquanto a verdade é revelada [Thompson, The Soul of Shame; Nicolosi, Shame and Attachment Loss; Conexões para a vida].
Nenhum dos materiais, entretanto, testou a combinação exata que pratico: escrever cartas-oração por aproximadamente uma hora, quase diariamente, utilizando estimulação auditiva bilateral e compartilhando depois o conteúdo com uma psicóloga. Essa combinação permanece uma hipótese fundada em minha experiência pessoal e no diálogo entre diferentes componentes já estudados ou descritos clinicamente.
Síntese do meu processo
Recolho-me ao meu quarto e procuro não ser interrompido, trancando-me.
Reservo aproximadamente uma hora e não tenho pressa de terminar.
Escrevo à mão no mesmo caderno.
Utilizo estimulação auditiva alternada enquanto escrevo.
Digo expressamente a Deus que Ele está ao meu lado, vendo-me e ouvindo-me e amparando-me.
Escrevo diretamente para Deus ou para a pessoa que me feriu, mas sempre na presença de Deus.
Posso começar por uma lembrança específica ou apenas pelas sensações corporais daquele momento.
Acompanho as emoções, imagens, memórias e crenças que surgem enquanto escrevo.
Procuro ser tão honesto quanto consigo sem perder regulação, agência e orientação para o presente.
Permito-me sentir e chorar.
Identifico as crenças negativas associadas à experiência.
Procuro reconhecer a perda relacional escondida sob a vergonha e fazer o luto.
Percebo o momento em que a dor começa a ceder e reconheço que sobrevivi.
Aproximo crenças positivas que possam me amparar.
Compartilho posteriormente a carta com minha psicóloga.
Pela repetição desse processo, o caderno tornou-se um lugar seguro interno.
Em um parágrafo
A escrita me ajuda a integrar aquilo que o trauma fragmentou. Mesmo quando a carta é dirigida à pessoa que me feriu, ela também é uma oração, porque escrevo conscientemente na presença de Deus, que me vê e me ouve. A carta devolve-me a voz diante de quem me ofendeu; a oração retira minha dor do isolamento espiritual; e o compartilhamento terapêutico retira minha vergonha da solidão emocional. Ao ser honesto diante do outro, diante de Deus e diante de uma pessoa segura, começo a experimentar que posso ser plenamente conhecido sem ser novamente rejeitado.
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APÊNDICE A: COMO RECONHECER A PERDA RELACIONAL ESCONDIDA SOB A VERGONHA E FAZER O LUTO
Quando a vergonha aparece durante a escrita, procuro não tratá-la como uma prova de que existe alguma coisa errada comigo. Começo a vê-la como uma sentinela, isto é, uma parte de mim que permanece diante de uma dor relacional mais profunda e tenta impedir que eu me aproxime dela.
A vergonha costuma dizer: “Você é fraco por ainda sofrer com isso”, “Isso não foi tão grave”, “Você está exagerando”, “A culpa foi sua”, “Ninguém pode saber que você sente isso” ou “Se essa pessoa não o amou, deve haver alguma coisa errada com você”. Enquanto acredito nessas acusações, continuo olhando para mim mesmo como o problema e não consigo enxergar aquilo que realmente aconteceu na relação.
Nicolosi explica que a vergonha pode interromper o luto e esconder a perda sob uma barreira de defesas. Em vez de reconhecer “eu fui ferido”, a pessoa conclui “eu sou defeituoso”. Em vez de sentir tristeza pelo que lhe faltou e indignação pelo modo como foi tratada, ela volta sua ira contra si mesma. Desse modo, a vergonha preserva a relação ou a imagem da pessoa amada, mas faz com que a vítima carregue a culpa pela perda que sofreu [Nicolosi, 2009, caps. 19–21].
O que é uma perda relacional?
Uma perda relacional não acontece apenas quando alguém morre ou quando uma relação termina. Ela também acontece quando uma relação importante não foi aquilo que deveria ter sido.
Posso estar fazendo o luto:
de não ter sido visto, conhecido ou compreendido;
de não ter sido protegido quando precisava;
de não ter recebido afeto, acolhimento ou segurança;
de ter sido rejeitado, humilhado, abandonado ou traído;
de não ter tido liberdade para falar sobre o que sentia;
de ter precisado esconder partes de mim para conservar a relação;
da infância, da inocência ou do sentimento de pertencimento que perdi;
da confiança que eu tinha naquela pessoa;
da relação que eu esperava construir com ela;
da esperança de que algum dia ela finalmente me reconheceria, pediria perdão ou me daria aquilo que sempre esperei receber.
Por isso, não escrevo apenas sobre o que a pessoa fez. Escrevo também sobre aquilo que sua conduta me impediu de viver. O acontecimento pode ter durado alguns minutos, mas a perda pode envolver anos de segurança, espontaneidade, confiança, pertencimento ou esperança.
Como reconheço a perda escondida sob a vergonha
Quando percebo uma crença como “não sou digno de amor”, “sou descartável”, “ninguém me escolherá” ou “há alguma coisa errada comigo”, não tento apenas substituir imediatamente essa crença por outra mais positiva. Antes disso, procuro descobrir qual experiência relacional deu origem a ela.
Durante a carta, posso perguntar a mim mesmo:
O que aconteceu comigo naquela relação?
O que eu precisava receber dessa pessoa e não recebi?
O que uma criança, um filho, um amigo ou alguém amado deveria ter recebido naquela situação?
O que eu perdi por causa do que aconteceu?
O que concluí sobre mim quando fui rejeitado?
Que parte da culpa ou da ira dirigi contra mim mesmo?
O que ainda espero que essa pessoa faça para reparar o passado?
O que preciso admitir que talvez nunca receba dela?
Então procuro escrever a diferença entre o acontecimento, a perda e a crença que formei. Por exemplo:
O acontecimento foi que você me rejeitou quando eu precisava de você. A perda foi não ter recebido acolhimento, proteção e a segurança de que eu continuaria sendo amado. A crença que formei foi que eu era um peso e que ninguém permaneceria ao meu lado. Hoje começo a perceber que a sua incapacidade de me acolher não prova que eu fosse impossível de amar.
Essa distinção é importante porque retira a dor do campo da identidade e a devolve ao campo da relação. “Eu não fui amado como precisava” não significa “eu não era digno de amor”. “Eu fui rejeitado” não significa “eu sou rejeitável”. “Alguém não conseguiu me proteger” não significa “eu não merecia proteção”.
Como faço o luto durante a carta
Fazer o luto não é simplesmente chorar, embora o choro possa fazer (e costumeiramente faz) parte dele. Também não é procurar a maior intensidade emocional possível. O luto começa quando reconheço honestamente a realidade da perda, sua importância, seus efeitos sobre mim e o fato de que o passado não pode ser desfeito [Nicolosi, 2009, caps. 19–23].
Na prática, faço esse movimento da seguinte maneira:
Começo pelo que está presente em meu corpo.
Nem sempre inicio a carta com uma memória definida. Posso começar dizendo a Deus que sinto um aperto no peito, um nó na garganta, um peso no estômago, vazio, medo, ira ou tristeza. Enquanto escrevo e utilizo a estimulação auditiva alternada, permito que essas sensações conduzam a escrita. Aos poucos, podem surgir imagens, lembranças, palavras e crenças que eu não tinha planejado acessar.Escrevo aquilo que a vergonha está dizendo.
Não tento parecer equilibrado, espiritual ou maduro. Escrevo com honestidade: “Sinto vergonha de ainda sofrer”, “Tenho medo de que Deus ache minha dor pequena”, “Sinto-me desprezível”, “Parece que fui rejeitado porque não havia valor em mim”. Ao colocar essas acusações no papel, começo a enxergá-las como crenças, e não como fatos.Pergunto qual perda a vergonha está tentando esconder.
Posso escrever: “Se eu não estivesse me acusando agora, o que eu sentiria?”, “Do que realmente tenho vontade de chorar?”, “O que eu precisava daquela pessoa?”, “O que deveria ter acontecido e não aconteceu?”. Muitas vezes, abaixo da crença “sou indigno” encontro uma verdade diferente: “eu precisava ser amado e não fui acolhido como precisava”.Reconheço que minha necessidade era legítima.
Digo a Deus e à pessoa que me feriu: “Eu precisava de sua presença”, “Eu precisava que você me defendesse”, “Eu precisava que você acreditasse em mim”, “Eu precisava continuar sendo amado mesmo quando mostrasse minha dor”. Reconhecer a necessidade não me torna fraco. A intensidade da dor revela a importância que aquela relação tinha para mim.Permito-me sentir tristeza por mim e ira diante da injustiça.
Nicolosi descreve esses dois sentimentos como caminhos que levam da vergonha ao luto: tristeza por aquilo que perdi e ira dirigida adequadamente àquilo que foi injusto. Isso é diferente de voltar a ira contra mim mesmo. Posso escrever: “Foi injusto”, “Eu não deveria ter sido tratado assim”, “Eu era uma criança”, “Eu não tinha como resolver aquilo”, “Não era minha responsabilidade conquistar o amor que você deveria ter me oferecido”.Permaneço com a dor sem me abandonar.
Posso chorar, sentir o corpo, escrever frases interrompidas e voltar várias vezes à mesma lembrança. Não preciso apressar a carta nem encontrar logo uma explicação. Nesse momento, a questão não é produzir um texto bonito, mas permanecer comigo mesmo naquilo que durante muito tempo precisei evitar. Como sintetiza um dos relatos apresentados por Nicolosi, a escrita não necessariamente elimina a dor; ela pode transformar “preciso fugir dessa dor” em “consigo permanecer com essa dor” [Nicolosi, 2009, cap. 15].
Entretanto, não procuro intensidade a qualquer custo. O princípio continua sendo este: não é a máxima intensidade que favorece o processamento, mas a máxima honestidade que consigo sustentar sem perder regulação, agência e orientação para o presente.Reconheço o que não pode ser recuperado do modo como eu desejava.
Esta talvez seja a parte mais dolorosa do luto. Preciso admitir que aquela infância não pode ser refeita, que certas palavras não podem ser retiradas e que talvez a pessoa nunca reconheça o que fez ou nunca se torne capaz de me oferecer a relação que eu esperava. Aceitar a irreversibilidade da perda não significa dizer que aquilo foi aceitável. Significa parar de fazer meu valor depender de uma reparação que talvez nunca venha.Faço o luto também da esperança impossível.
Às vezes, não estou preso apenas ao que aconteceu, mas à esperança de que, se eu for suficientemente bom, compreensivo, útil ou perfeito, finalmente serei escolhido e amado por quem me rejeitou. Fazer o luto inclui reconhecer essa esperança, chorar por ela e começar a soltá-la. Posso escrever: “Passei muitos anos tentando merecer aquilo que deveria ter sido oferecido livremente”, ou: “Não preciso continuar provando meu valor para obter de você aquilo que você não soube me dar”.Permaneço em relação enquanto sinto.
Mesmo quando a carta é dirigida à pessoa que me feriu, digo expressamente a Deus que estou escrevendo com Ele ao meu lado, vendo-me e ouvindo-me. Assim, não retorno sozinho à experiência de abandono. A carta para a pessoa torna-se, ao mesmo tempo, uma oração escrita a Deus.
Depois, compartilho a carta com minha psicóloga. Esse compartilhamento é parte importante do processo, porque o luto relacional não acontece apenas dentro de mim. Aquilo que nasceu numa experiência de isolamento começa a ser transformado numa experiência de presença. Posso mostrar minha tristeza, minha ira, minhas necessidades e minha vergonha e descobrir que continuo sendo visto, respeitado e acolhido. Nicolosi enfatiza que o luto precisa ser vivido em contato emocional com o terapeuta; Thompson, por sua vez, ressalta o papel da vulnerabilidade e de uma comunidade capaz de nos conhecer sem nos expulsar [Nicolosi, 2009, caps. 19–20; Thompson, 2015, caps. 6–8].Permito que uma verdade nova apareça sem usá-la para silenciar o luto.
Em algum momento, a dor começa a ceder. Percebo que entrei em contato com aquela lembrança, senti o que precisava sentir e sobrevivi. A experiência pertence ao passado, embora meu corpo a tenha carregado como se ainda estivesse acontecendo.
Nesse ponto — ou mesmo no ponto mais intenso, quando preciso de amparo — posso visualizar e escrever crenças positivas: “Eu sobrevivi”, “Hoje tenho voz”, “Eu era digno de proteção”, “A rejeição daquela pessoa não define meu valor”, “Posso ser conhecido sem ser novamente rejeitado”, “Deus está comigo nesta dor”, “Posso construir relações diferentes”.
Essas crenças não entram para mandar que a tristeza desapareça. Elas se aproximam da parte ferida para acompanhá-la. Não dizem “você não deveria sentir”; dizem “você não está mais sozinho enquanto sente”.
O que significa concluir o luto
Concluir o luto não significa esquecer, deixar de sentir qualquer tristeza ou afirmar que a perda não importa mais. Significa conseguir recordar o que aconteceu sem continuar transformando a falha da relação numa condenação contra mim mesmo.
O luto começa a encontrar resolução quando consigo dizer:
Isto aconteceu. Foi importante. Eu precisava de algo que não recebi. Essa falta me feriu e influenciou a maneira como passei a enxergar a mim mesmo e os relacionamentos. O passado não pode ser desfeito, e talvez essa pessoa nunca me ofereça a reparação que eu desejava. Ainda assim, aquilo que me faltou não determina aquilo que sou. Posso sofrer a perda, honrar minhas necessidades e começar a receber amor, proteção, pertencimento e verdade em relações que existem no presente.
Somente depois de reconhecer a perda consigo compreender concretamente o que estou perdoando. O perdão não substitui o luto, não apaga a injustiça, não exige reconciliação e não elimina a necessidade de limites. Ele deixa de ser uma fórmula abstrata porque agora sei o que foi tirado de mim, o que não pode ser devolvido e o que estou colocando diante de Deus.
Assim, a vergonha deixa de funcionar como uma sentinela que me mantém afastado da perda. Eu atravesso essa barreira, encontro a tristeza, a ira, a necessidade legítima e o amor que ainda existem por baixo dela. Ao fazer isso na presença de Deus e de uma pessoa segura, já não preciso continuar carregando sozinho aquilo que o trauma me ensinou a esconder.
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APÊNDICE B: POR QUE PROCURO AJUDA ESPECIALIZADA E O QUE O EMDR E O BRAINSPOTTING PODEM OFERECER NO TRATAMENTO DO TRAUMA
Escrever essas cartas tem me ajudado a reconhecer sentimentos, sensações corporais, lembranças, crenças negativas e perdas relacionais que durante muito tempo permaneceram escondidos sob a vergonha. Entretanto, o fato de a escrita alcançar conteúdos tão profundos é justamente uma das razões pelas quais não considero prudente realizar todo esse processo sozinho.
Uma prática capaz de me aproximar de experiências dolorosas também pode fazer emergir mais conteúdo do que uma pessoa consegue compreender, regular ou integrar naquele momento. A pessoa pode chorar intensamente e continuar presente, consciente e capaz de escolher o que fazer. Mas também pode ficar emocionalmente sobrecarregada, perder a orientação para o presente, entrar em pânico, sentir-me entorpecido ou desligado do corpo e ter dificuldade para interromper o processo.
Por isso, compartilhar as cartas com minha psicóloga não é apenas mostrar a ela o resultado daquilo que fiz. É permitir que o material revelado pela escrita seja compreendido dentro de uma relação terapêutica, de uma avaliação clínica e de um plano de tratamento.
A carta me ajuda a encontrar o material. A psicoterapia me ajuda a avaliar como trabalhar com esse material, em que ritmo, com quais recursos e dentro de quais limites.
UMA PESSOA DE CONFIANÇA E UM PROFISSIONAL ESPECIALIZADO NÃO DESEMPENHAM EXATAMENTE A MESMA FUNÇÃO
Uma pessoa de confiança pode oferecer algo muito importante: presença, acolhimento, respeito e testemunho. Quando revelo uma experiência que mantive escondida e continuo sendo amado e aceito, começo a contrariar a expectativa da vergonha de que, se alguém me conhecer verdadeiramente, irá rejeitar-me.
Essa experiência relacional pode ser profundamente reparadora. Aquilo que nasceu no isolamento começa a ser colocado em relação. Em vez de permanecer sozinho com a dor, descubro que alguém pode conhecê-la e permanecer ao meu lado [Nicolosi, 2009; Thompson, 2015].
Entretanto, uma pessoa pode ser amorosa e confiável sem estar preparada para acompanhar o processamento de um trauma. Ela pode não saber reconhecer a dissociação, desregulação intensa, risco de retraumatização, sintomas de estresse pós-traumático ou a necessidade de interromper determinada exploração. Também pode sentir-se assustada, impotente ou sobrecarregada diante do que escuta.
Um profissional de saúde mental legalmente habilitado e capacitado para trabalhar com trauma acrescenta outros elementos: avalia minha história e minhas condições atuais antes de aprofundar o contato com as lembranças; ajuda a distinguir emoção intensa de perda de regulação; reconhece sinais de dissociação, congelamento, entorpecimento ou sobrecarga; avalia meus recursos internos, relacionais, espirituais e corporais; ajuda a organizar as lembranças e crenças que aparecem em diferentes cartas; define comigo quais experiências podem tornar-se alvos do tratamento; decide quando é possível aprofundar o processamento e quando é necessário priorizar estabilização e segurança; acompanha o que acontece durante e depois das sessões; oferece métodos específicos de tratamento, sem reduzir o trauma a uma simples descarga emocional.
Por isso, ser ouvido por uma pessoa segura e receber tratamento especializado são experiências relacionadas, mas não idênticas. A primeira pode retirar o segredo do isolamento; a segunda acrescenta avaliação, responsabilidade clínica, planejamento e intervenções terapêuticas apropriadas.
COMO AS CARTAS PODEM PARTICIPAR DA PSICOTERAPIA?
As cartas podem funcionar como uma ponte entre aquilo que experimento sozinho e aquilo que consigo trabalhar acompanhado. Elas registram sensações, imagens, lembranças, crenças e conexões que talvez fossem difíceis de recordar ou explicar apenas durante a sessão.
Quando levo uma carta à minha psicóloga, ela pode me ajudar a perceber: qual lembrança parece estar no centro da experiência; quais situações atuais ativam a mesma rede de memória; qual crença negativa se repete em diferentes acontecimentos; qual perda relacional está escondida sob a vergonha; quais partes do relato pertencem ao passado e quais continuam sendo vividas como se estivessem acontecendo no presente; quais recursos e crenças positivas já começaram a aparecer; se estou conseguindo permanecer orientado e regulado durante o contato com esse conteúdo; se determinada lembrança pode ser trabalhada por meio do EMDR, do Brainspotting ou de outra abordagem terapêutica.
A carta não precisa ser lida integralmente em voz alta para ser útil. Também não é necessário transformar toda lembrança que aparece em um alvo imediato de processamento. Algumas cartas ajudam principalmente a reconhecer padrões; outras revelam perdas que precisam ser lamentadas; algumas apresentam lembranças que podem ser trabalhadas diretamente; e outras mostram que ainda preciso desenvolver recursos antes de me aproximar novamente de determinado conteúdo.
O terapeuta não recebe a carta como um juiz que decidirá se meus sentimentos estão certos ou errados. Ele a recebe como parte da minha experiência e me ajuda a compreender aquilo que sozinho talvez eu enxergasse apenas como confusão, culpa ou defeito pessoal.
O DIFERENCIAL DO EMDR
O EMDR, sigla em inglês que significa Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, é uma psicoterapia completa e estruturada. Embora a estimulação bilateral seja um de seus componentes mais conhecidos, o tratamento não consiste apenas em movimentar os olhos, ouvir sons alternados ou receber toques de um lado para o outro.
O protocolo completo é organizado em oito fases:
1. Levantamento da história e planejamento do tratamento, quando o terapeuta procura compreender a história da pessoa, seus sintomas, seus recursos e os possíveis alvos.
2. Preparação, quando a pessoa conhece o método, experimenta formas de estimulação bilateral e desenvolve recursos para permanecer orientada e regulada e para encerrar a sessão de maneira segura.
3. Avaliação da memória-alvo, quando são identificados a imagem perturbadora, a crença negativa, a crença positiva desejada, as emoções, o nível de perturbação e as sensações corporais.
4. Dessensibilização, quando a memória é trabalhada enquanto a estimulação bilateral acompanha as associações que surgem.
5. Instalação, quando uma crença positiva mais adaptativa é fortalecida e relacionada à experiência trabalhada.
6. Escaneamento corporal, quando se observa se ainda existe perturbação associada à memória em alguma parte do corpo.
7. Encerramento, quando o terapeuta ajuda a concluir a sessão e orienta sobre o que pode acontecer entre os encontros.
8. Reavaliação, quando se verifica o que mudou, o que ainda precisa ser trabalhado e qual será o passo seguinte.
[Carvalho, 2015; Croitoru, 2014; Grand, 2010]
O QUE ACONTECE CONCRETAMENTE DURANTE A DESSENSIBILIZAÇÃO E O REPROCESSAMENTO?
O diferencial do EMDR torna-se mais claro quando se compreende o que acontece concretamente depois que a memória-alvo foi preparada. Antes de iniciar a estimulação bilateral, o terapeuta já ajudou a pessoa a identificar a imagem que representa a parte mais perturbadora da experiência, a crença negativa associada a ela, a emoção que aparece, a região do corpo em que se sente essa emoção e o nível atual de perturbação. Também foi identificada uma crença positiva que a pessoa gostaria de conseguir reconhecer como verdadeira ao recordar o acontecimento.
Suponhamos que a imagem escolhida seja o momento em que uma pessoa foi rejeitada e que, ligada a essa experiência, esteja a crença ‘não sou digno de amor’. Ao pensar nessa cena, ela pode sentir vergonha, tristeza e medo, acompanhados por um aperto no peito, e avaliar a perturbação como oito numa escala de zero a dez. Talvez deseje conseguir recordar o mesmo acontecimento acreditando: ‘A rejeição que sofri não define meu valor’ ou ‘Hoje posso escolher pessoas capazes de me amar e me respeitar’.”
É a partir desse conjunto — imagem, crença negativa, emoção e sensação corporal — que se inicia a fase de dessensibilização.
O terapeuta pede que a pessoa traga brevemente à mente a imagem, as palavras negativas e a sensação corporal. A pessoa não precisa narrar novamente todos os detalhes nem permanecer repetindo a história em voz alta. Ela precisa apenas entrar em contato suficiente com a experiência para que a rede de memória seja ativada, sem perder a percepção de que está no consultório, acompanhada e no presente.
Em seguida, o terapeuta inicia uma série curta de estimulação bilateral. A pessoa pode acompanhar os dedos do terapeuta ou uma barra luminosa com os olhos, ouvir sons alternados nos fones ou receber toques sucessivos de um lado e do outro do corpo, geralmente nas mãos ou nos joelhos. Enquanto isso acontece, não se tenta descobrir racionalmente o que deveria sentir nem se procura conduzir a experiência para determinada conclusão. Apenas observa-se o que surge.
Depois de cada série, o terapeuta interrompe a estimulação e pergunta algo simples, como:
“O que você percebeu agora?”
Pode-se responder que a imagem ficou mais distante, que apareceu outra lembrança, que se sentiu raiva, que o aperto mudou do peito para a garganta, que surgiu uma frase na mente, que a pessoa se recordou de algo aparentemente sem relação ou que, naquele momento, não compreendeu nada. O terapeuta normalmente não transforma cada resposta numa longa conversa. Se o processamento estiver fluindo, pode apenas dizer:
“Perceba isso.”
Então começa outra série de estimulação bilateral.
Assim, a sessão se desenvolve por meio de uma sucessão de pequenos ciclos: entra-se em contato com aquilo que está presente; recebe-se a estimulação bilateral; observa-se as associações que surgem; conta-se brevemente ao terapeuta o que é percebido; retorna-se ao ponto que apareceu e acompanha-se o próximo movimento do processo.
As associações não seguem necessariamente uma ordem lógica. Uma sensação no peito pode conduzir a uma imagem da infância; essa imagem pode trazer uma lembrança de humilhação; a humilhação pode revelar a crença “há alguma coisa errada comigo”; depois, pode surgir raiva pelo modo como a pessoa foi tratada, seguida de tristeza pelo amor que não se recebeu. Em outro momento, o paciente pode se recordar de uma pessoa que o protegeu; pode perceber que hoje possui recursos que não tinha naquela época ou reconhecer que a responsabilidade pelo ocorrido não era sua.
O terapeuta acompanha essas mudanças sem exigir que o paciente compreenda imediatamente todas as conexões. O livro Revolução EMDR explica que o processamento pode transitar entre diferentes momentos e canais da experiência: imagens, emoções, pensamentos, sensações corporais, lembranças antigas, acontecimentos recentes e antecipações do futuro. Algumas associações inicialmente parecem aleatórias, mas sua relação com a crença negativa pode tornar-se visível mais adiante [Croitoru, 2014].
Durante esse percurso, a perturbação não precisa diminuir de maneira contínua. Ela pode cair, voltar a subir e depois cair novamente. Uma lembrança que começou com tristeza pode revelar uma camada de vergonha; quando a vergonha diminui, pode aparecer a ira; depois da ira, talvez se torne possível reconhecer a perda e fazer o luto.
Por isso, a elevação momentânea da emoção não significa necessariamente que o tratamento tenha falhado. O que importa é que exista movimento e que a pessoa tratada continue capaz de permanecer presente. Se nada muda por várias séries, o terapeuta pode investigar se existe uma lembrança mais antiga alimentando o problema, modificar a estimulação ou realizar uma intervenção breve para ajudar o processamento a retomar seu curso.
Também pode acontecer de a emoção crescer além daquilo que se consegue sustentar. Nesse caso, o terapeuta não deve insistir para que o paciente sofra mais. Ele pode diminuir o ritmo, encurtar as séries, interromper a estimulação, ajudar a pessoa a perceber o ambiente, retornar a um recurso ou encerrar o trabalho com segurança. O objetivo não é produzir uma catarse violenta, mas manter uma ativação suficiente para acessar a memória sem empurrar a pessoa novamente para o pânico, o congelamento ou a dissociação.
Como afirma Esly Carvalho, uma ab-reação intensa pode acompanhar o reprocessamento, mas não é sinônimo de cura. Se a emoção se torna avassaladora, a pessoa pode perder a capacidade de estabelecer novas associações e retornar ao mesmo estado de dissociação que originalmente a ajudou a sobreviver. A emoção deve ser consequência do contato honesto com a experiência, e não uma prova que a pessoa precisa suportar para merecer melhorar [Carvalho, 2015].
O QUE SIGNIFICA DESSENSIBILIZAR UMA MEMÓRIA?
Dessensibilizar não significa apagar a lembrança, esquecer o que aconteceu ou concluir que a experiência deixou de ser grave. Significa reduzir a intensidade emocional e corporal automática que acompanha a recordação.
Antes do processamento, lembrar pode fazer o organismo reagir como se a rejeição estivesse acontecendo novamente. A pessoa pode sentir o mesmo medo, a mesma vergonha, o mesmo desamparo e o mesmo aperto no corpo. Embora racionalmente saiba que o acontecimento terminou, alguma parte da pessoa ainda reage como se continuasse em perigo.
Depois de uma dessensibilização bem-sucedida, consegue-se recordar os fatos sem ser novamente lançado na experiência com a mesma intensidade. A imagem pode ficar menos nítida, mais distante ou menos ameaçadora. O corpo pode deixar de produzir a mesma resposta de alarme. Consegue-se pensar no que aconteceu sem perder completamente o contato com o presente.
A lembrança continua fazendo parte da história da pessoa e o acontecimento permanece verdadeiro, mas já não controla automaticamente seu estado emocional.
O QUE SIGNIFICA REPROCESSAR UMA MEMÓRIA?
A dessensibilização é a redução da perturbação; o reprocessamento é uma mudança mais ampla na maneira como a experiência está conectada às demais informações da história do paciente.
Segundo o modelo de Processamento Adaptativo de Informação, uma experiência traumática pode permanecer vinculada às imagens, emoções, sensações e crenças existentes no momento em que aconteceu. Quando essa rede é ativada, a pessoa não recupera apenas uma descrição do passado: recupera também o medo, a vergonha, o desamparo e a conclusão que formou sobre si mesma [Bergmann, 2014; Carvalho, 2015].
Desse modo, a criança que foi rejeitada pode ter concluído: “Não sou digno de amor”. Anos depois, essa crença continua sendo ativada diante de situações que apenas se parecem com a experiência original. Uma demora na resposta de alguém, uma crítica ou um afastamento pode despertar uma reação emocional muito maior do que a situação presente explicaria, porque está ativando uma rede antiga.
No reprocessamento, a lembrança perturbadora começa a relacionar-se com informações que estavam disponíveis racionalmente, mas que ainda não eram sentidas como verdadeiras:
“Aquilo aconteceu no passado.”
“Eu sobrevivi.”
“Eu era uma criança e não tinha culpa.”
“Eu precisava de proteção.”
“A incapacidade daquela pessoa de me amar não determina meu valor.”
“Hoje tenho voz, escolhas e recursos.”
“Posso estabelecer limites.”
“Não estou mais sozinho.”
A nova compreensão não é apenas pronunciada pelo terapeuta nem repetida como uma fórmula de pensamento positivo. Ela precisa tornar-se emocional e corporalmente compatível com a lembrança. Por isso, depois que a perturbação diminui, o EMDR utiliza a fase de instalação para aproximar a memória da crença positiva e verificar o quanto essa crença realmente parece verdadeira.
Quando o processamento se completa, a pessoa pode continuar triste pelo que perdeu, mas a tristeza já não precisa vir acompanhada da condenação “eu fui rejeitado porque sou indigno”. Pode-se sentir ira diante da injustiça sem voltar essa ira contra si mesmo. Pode-se fazer o luto da relação que não se teve sem continuar tentando conquistar, no presente, aquilo que a pessoa do passado não soube oferecer.
O EMDR, portanto, não elimina necessariamente a tristeza legítima nem decide pela pessoa se ela deve perdoar ou se reconciliar. Ele pode reduzir a sobrecarga traumática que mantinha o luto bloqueado, permitindo que se reconheça a perda, atribua corretamente a responsabilidade e escolha com mais liberdade o que fazer com essa história.
COMO SE PERCEBE QUE A MEMÓRIA ESTÁ SENDO REPROCESSADA?
O reprocessamento pode aparecer de diferentes maneiras. Algumas pessoas percebem mudanças nas imagens; outras experimentam principalmente alterações corporais, emocionais ou cognitivas. Durante as séries, o paciente pode notar que a cena fica mais distante ou menos nítida; que a emoção diminui ou muda de qualidade; que o aperto no corpo se desloca, enfraquece ou desaparece; que surge uma lembrança anterior relacionada ao mesmo tema; que aparecem detalhes dos quais não se recordava; que consegue observar a cena a partir de sua perspectiva adulta; que reconhece não ter sido culpado; que percebe ter sobrevivido; que sente compaixão por quem era naquela época; que se recorda de alguém que o protegeu ou de uma experiência que contradiz a crença negativa; e, finalmente, que a afirmação positiva deixa de parecer apenas uma ideia e começa a ser sentida como verdadeira, inclusive no corpo.
Ao final da dessensibilização, o terapeuta apresenta novamente a memória original e pergunta quanto ela ainda perturba. Se a carga emocional diminuiu suficientemente, passa-se à instalação da crença positiva. Depois, realiza-se o escaneamento corporal: recorda-se o acontecimento e observa-se o corpo da cabeça aos pés, verificando se ainda existe algum resíduo de tensão, dor, medo ou desconforto que precise ser processado.
Uma sessão não precisa terminar obrigatoriamente com toda a perturbação reduzida a zero. Traumas relacionais complexos podem envolver várias lembranças, crenças e perdas, exigindo mais tempo, preparação e diferentes alvos. Quando o processamento não se completa naquela sessão, o terapeuta ajuda a encerrar o trabalho, recuperar estabilidade e acompanhar o que acontecerá até o encontro seguinte.
O QUE PODE MUDAR NA SAÚDE EMOCIONAL?
Quando o tratamento é bem-sucedido, a mudança não aparece apenas na maneira como a pessoa conta sua história. Ela pode ser percebida na vida cotidiana.
Situações que anteriormente ativavam medo, vergonha ou sensação de abandono podem perder parte de seu poder. A pessoa pode ter menos lembranças intrusivas, pesadelos, evitação e hipervigilância; pode dormir melhor, reagir com menos intensidade aos disparadores, sentir maior capacidade de estabelecer limites e experimentar uma visão menos condenatória de si mesma.
Nos estudos com pessoas que apresentam transtorno de estresse pós-traumático, o EMDR está associado à redução dos sintomas traumáticos e depressivos e, em parte dos pacientes, à perda do próprio diagnóstico de TEPT. Isso não significa que todos obtenham os mesmos resultados ou que qualquer sofrimento emocional possa ser tratado da mesma maneira. A resposta depende da história, da complexidade do trauma, das condições atuais, da relação terapêutica e da realização adequada do tratamento [National Center for PTSD, 2026].
No caso da vergonha e dos traumas de rejeição, uma mudança especialmente importante acontece quando a lembrança deixa de confirmar uma identidade defeituosa. Em vez de “fui rejeitado porque não mereço amor”, pode-se chegar a uma compreensão mais verdadeira: “Fui ferido numa relação importante, perdi algo de que precisava e formei uma crença negativa para explicar essa dor; contudo, o que aquela pessoa fez ou deixou de fazer não define quem sou”.
O QUE PODE ACONTECER NO CÉREBRO?
É importante falar sobre o cérebro com precisão. A imagem de que o hemisfério esquerdo organiza uma lembrança traumática armazenada no hemisfério direito pode servir como metáfora, sobretudo porque linguagem, narrativa, emoção e experiência corporal realmente podem estar pouco integradas depois do trauma. Entretanto, uma memória não fica guardada inteira em um único hemisfério nem o EMDR funciona simplesmente porque “liga os dois lados do cérebro”.
As lembranças são sustentadas por redes distribuídas que envolvem percepção, emoção, sensações corporais, linguagem, significado, resposta de ameaça e contextualização no tempo. Bergmann explica que, sob estresse traumático, essas dimensões podem permanecer insuficientemente vinculadas: a amígdala e os sistemas autonômicos continuam reagindo ao perigo, enquanto a memória não é adequadamente contextualizada como pertencente a outro tempo e lugar. Por isso, a pessoa pode saber racionalmente que o acontecimento terminou e, ainda assim, senti-lo corporalmente como presente [Bergmann, 2014].
Segundo o modelo de Processamento Adaptativo de Informação, o EMDR acessa essa rede perturbadora em condições controladas e procura favorecer sua ligação com redes que contêm informações mais adaptativas. A lembrança deixa de permanecer isolada com a emoção e a crença originais e passa a integrar uma rede autobiográfica mais ampla, na qual existem o presente, a sobrevivência, os recursos adquiridos e novas possibilidades de resposta.
Em termos funcionais, isso significa que a memória pode recuperar sua localização temporal: não está sendo apagada, mas passa a ser reconhecida pelo cérebro e pelo corpo como algo que aconteceu e terminou.
Ainda não existe uma explicação única e definitivamente comprovada para o mecanismo da estimulação bilateral. Entre as hipóteses estudadas estão a manutenção de uma atenção dupla — uma parte da atenção permanece na lembrança e outra acompanha o estímulo presente —, a redução da ativação fisiológica e a sobrecarga temporária da memória de trabalho.
Segundo esta última hipótese, recordar uma imagem dolorosa e, ao mesmo tempo, executar uma segunda tarefa que exige atenção faz com que ambas disputem a capacidade limitada da memória de trabalho. Como resultado, a imagem pode tornar-se momentaneamente menos vívida e menos carregada de emoção, oferecendo melhores condições para que seja trabalhada e integrada com menor carga emocional. Uma revisão sistemática encontrou apoio para essa explicação, embora reconheça que os estudos ainda apresentam limitações e não esclarecem, isoladamente, todo o efeito terapêutico do EMDR [Wadji, Martin-Soelch & Camos, 2022].
Assim, é mais seguro afirmar que o EMDR parece favorecer uma integração funcional entre redes de memória, emoção, sensação corporal, atenção, significado e percepção temporal. Não é possível afirmar que a estimulação bilateral simplesmente sincronize os hemisférios, reproduza exatamente o sono REM ou alcance diretamente um suposto “cérebro reptiliano”. Essas imagens podem ajudar a explicar a experiência, mas permanecem simplificações de processos cerebrais muito mais complexos.
A formulação mais fiel ao que os materiais que pude consultar permitem sustentar seria esta: durante o EMDR, a memória traumática é acessada sem que a pessoa perca completamente a orientação para o presente. A estimulação bilateral acompanha uma sequência de associações entre imagens, emoções, sensações, crenças e outras lembranças. À medida que a perturbação diminui, a experiência pode conectar-se a informações mais adaptativas, recuperar sua localização no passado e deixar de produzir a mesma resposta automática de ameaça. A pessoa continua sabendo o que aconteceu, mas já não precisa continuar vivendo emocional e corporalmente como se aquilo ainda estivesse acontecendo.
Essa explicação também mostra por que minhas cartas se aproximam de alguns aspectos do reprocessamento, mas não se confundem com uma sessão de EMDR. Durante a escrita, também acompanho associações, reconheço sensações, encontro crenças negativas e observo a chegada de compreensões mais adaptativas. No EMDR, porém, todo esse movimento é realizado dentro de um protocolo, com uma memória avaliada, uma intensidade acompanhada, intervenções clínicas disponíveis e um terapeuta responsável por ajudar a preservar a regulação e a segurança do paciente.
O EMDR possui uma base de pesquisa mais ampla e aparece entre as psicoterapias recomendadas ou consideradas para adultos com transtorno de estresse pós-traumático. A Organização Mundial da Saúde o inclui entre as intervenções psicológicas que devem ser consideradas para adultos com TEPT, e a diretriz VA/DoD o apresenta entre as psicoterapias focadas no trauma com maior respaldo científico [Organização Mundial da Saúde, 2023](https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/treatment-care/mental-health-gap-action-programme/evidence-centre/conditions-related-to-stress/posttraumatic-stress-disorder-%28ptsd%29--psychological-interventions---adults); [VA/DoD, 2023](https://www.healthquality.va.gov/guidelines/MH/ptsd/VA-DoD-CPG-PTSD-Patient-Summary.pdf)].
O DIFERENCIAL DO BRAINSPOTTING
O Brainspotting foi desenvolvido por David Grand a partir de seu trabalho clínico com pessoas traumatizadas. Seu princípio central é que a posição para a qual a pessoa olha pode estar relacionada à intensidade e à qualidade de sua experiência interna. Em termos simples, determinadas posições do olhar parecem facilitar o acesso a sensações, emoções, lembranças e associações vinculadas ao problema trabalhado.
Uma sessão básica começa com a identificação daquilo que a pessoa deseja trabalhar. O terapeuta pergunta o nível de ativação e em que parte do corpo ela sente essa ativação. Em seguida, terapeuta e cliente procuram uma posição específica no campo visual, denominada brainspot.
Essa posição pode ser localizada de duas maneiras principais:
Na Janela Externa, o terapeuta observa reações reflexas enquanto movimenta lentamente uma ponteira pelo campo visual. Piscadas, alterações na respiração, movimentos dos olhos, mudanças na expressão facial ou outras respostas corporais podem indicar uma posição relevante.
Na Janela Interna, a própria pessoa informa em qual posição do olhar sente maior ativação, conexão corporal ou presença da experiência.
Depois de localizado o brainspot, a pessoa mantém o olhar naquela posição e observa o que acontece internamente. Podem surgir sensações corporais, emoções, lembranças, imagens, pensamentos ou mudanças difíceis de explicar verbalmente. Esse modo de observar o processo sem tentar controlá-lo é chamado, no Brainspotting, de mindfulness focada [Grand, 2016, caps. 2–5].
O primeiro diferencial do Brainspotting, portanto, é o uso de uma posição sustentada do olhar associada à ativação corporal. Diferentemente dos movimentos oculares alternados característicos do EMDR, no Brainspotting o olhar geralmente permanece fixo em um ponto enquanto a pessoa acompanha o processo interno.
O segundo diferencial é a atenção dada ao corpo. A pergunta fundamental não é apenas “o que você pensa sobre isso?”, mas “onde você sente essa ativação em seu corpo agora?”. A experiência corporal funciona como uma via de acesso ao material que ainda não encontrou linguagem ou narrativa organizada.
O terceiro diferencial é aquilo que David Grand denomina sintonia dual, na qual o terapeuta procura sintonizar-se simultaneamente com a relação terapêutica e com o processo mente-corpo da pessoa. Em vez de presumir antecipadamente para onde o processo deve ir, acompanha com curiosidade aquilo que emerge. Grand utiliza a imagem de que o cliente está na cabeça de um cometa e o terapeuta acompanha sua cauda: o cliente orienta e o terapeuta segue [Grand, 2016, cap. 6].
Isso não significa que o EMDR desconsidere a relação terapêutica. A preparação, a segurança e o vínculo também são essenciais no EMDR. A diferença é que o Brainspotting coloca a sintonia relacional e o acompanhamento não diretivo do processo no centro de sua própria formulação.
O quarto diferencial é o Modelo de Recurso. Para pessoas que ficam facilmente sobrecarregadas, apresentam dissociação ou não toleram níveis elevados de ativação, o terapeuta pode começar procurando uma região do corpo em que exista alguma sensação de calma, centralidade ou sustentação. Depois, pode localizar uma posição do olhar associada a esse recurso. O objetivo não é obrigar a pessoa a entrar diretamente na parte mais dolorosa, mas possibilitar que o processamento aconteça a partir de uma condição mais regulada [Grand, 2016, cap. 4].
O PAPEL DO SOM BILATERAL NO BRAINSPOTTING [E NO EMDR TAMBÉM]
David Grand descreve o Som BioLateral, uma espécie de estimulação auditiva bilateral, como sons ou músicas que se movimentam suavemente entre o ouvido esquerdo e o direito. Ele pode ser utilizado como apoio durante o Brainspotting e também em situações de relaxamento, criatividade ou concentração [Grand, 2016, caps. 3 e 13].
Entretanto, o som alternado não é aquilo que define o Brainspotting. Os elementos centrais são: a ativação relacionada ao tema trabalhado; a percepção da ativação no corpo; a localização de uma posição relevante do olhar; a manutenção do olhar nessa posição; a observação do processo interno; a presença e a sintonia do terapeuta.
Portanto, ouvir Som BiLateral enquanto escrevo não significa que esteja realizando Brainspotting. Para que houvesse uma intervenção propriamente dita de Brainspotting, seria necessário trabalhar de maneira intencional com a posição do olhar, a ativação corporal, o acompanhamento do processo e a sintonia terapêutica.
O próprio David Grand afirma que ninguém consegue oferecer a si mesmo a dimensão completa da sintonia dual, porque não pode observar-se simultaneamente de fora e de dentro. Ele também adverte que não é prudente tentar trabalhar sozinho um trauma profundo, pois não é possível prever o que será desenterrado. Quando conteúdos inesperados surgem numa sessão, o terapeuta treinado pode ajudar a pessoa a manter-se centrada e a recuperar estabilidade [Grand, 2016, cap. 13].
Essa advertência relaciona-se diretamente à minha prática. O Som Bilateral pode acompanhar minha escrita, mas não substitui a presença de minha psicóloga. Quando compartilho a carta, aquilo que surgiu sozinho passa a ser acolhido, examinado e integrado dentro de uma relação terapêutica.
COMO ESCOLHER AJUDA ESPECIALIZADA
Não basta procurar alguém que apenas diga trabalhar com trauma. Antes de iniciar EMDR, Brainspotting ou outra intervenção especializada, considero importante verificar se o profissional: possui habilitação legal para exercer sua profissão; tem formação específica na abordagem que afirma utilizar; possui experiência com trauma relacional, vergonha, rejeição e dissociação; realiza avaliação e planejamento antes de iniciar o processamento; explica como trabalha e obtém meu consentimento; respeita meus limites e minha liberdade de interromper ou desacelerar; não apresenta sofrimento extremo como prova de que a terapia está funcionando; não promete cura rápida, definitiva ou garantida; sabe trabalhar com preparação, estabilização e recursos; orienta sobre o que fazer caso eu continue emocionalmente ativado depois da sessão; respeita minha fé e compreende que a oração faz parte de minha experiência, sem impor crenças religiosas nem tentar retirar da espiritualidade o lugar que ela possui para mim; está disposto a conversar sobre como minhas cartas podem participar do tratamento.
Posso perguntar diretamente ao profissional:
“Qual é sua formação para trabalhar com trauma?”
“Você recebeu treinamento específico em EMDR ou Brainspotting?”
“Como avalia se uma pessoa está preparada para processar determinada lembrança?”
“Como trabalha quando alguém fica sobrecarregado ou dissociado?”
“O que acontece se eu não conseguir concluir o processamento durante a sessão?”
“Posso trazer as cartas que escrevo e conversar sobre a maneira como utilizo o Som BioLateral?”
“Como decidiremos juntos o que deve ou não ser trabalhado?”
Um profissional responsável não precisa prometer que determinada abordagem funcionará para mim. Ele precisa explicar possibilidades, limites, riscos e alternativas e construir comigo um plano compatível com minha história, minhas necessidades e minhas preferências.
QUANDO A NECESSIDADE DE AJUDA SE TORNA MAIS URGENTE?
Chorar, sentir tristeza ou entrar em contato com emoções fortes não significa necessariamente que algo esteja dando errado. Em meu processo, o choro muitas vezes acompanha a honestidade e o luto.
O sinal de alerta não é simplesmente a intensidade da emoção. É a perda persistente da capacidade de permanecer presente, escolher, interromper e retornar ao estado de orientação.
A pessoa precisa interromper a escrita e procurar ajuda profissional quando percebe, por exemplo: que não consegue reconhecer plenamente onde está ou que o acontecimento parece estar ocorrendo novamente; que se sente fora do corpo, irreal, entorpecido ou completamente desconectado; que têm lapsos de memória ou não consegue recordar parte do que faz; que a ativação continua aumentando e não cede depois que pára; que as cartas provocam piora persistente do sono, pesadelos, crises de pânico ou incapacidade de realizar as atividades cotidianas; que sente uma compulsão para continuar escrevendo mesmo quando já perdeu a capacidade de escolher; que passa a utilizar álcool, medicamentos ou outras substâncias para suportar o que emergiu; que surgem pensamentos de se ferir, de morrer ou de não conseguir manter a sua segurança.
Quando existe risco imediato de autoagressão ou incapacidade de permanecer segura, não se deve esperar a próxima sessão: é necessário procurar imediatamente um serviço de emergência ou outro atendimento profissional disponível.
COMO INTEGRO AS CARTAS AO MEU TRATAMENTO
No meu caso, procuro contar à minha psicóloga não apenas o que escrevi, mas também como foi o processo: se comecei por uma lembrança ou por uma sensação corporal; quais emoções surgiram; quais crenças negativas encontrei; se apareceram lembranças que eu não estava procurando; qual foi o ponto de maior intensidade; se permaneci orientado e capaz de escolher; quando a dor começou a ceder; quais crenças positivas me ofereceram amparo; como me senti nas horas e nos dias seguintes; como utilizei a estimulação auditiva durante a escrita.
Essas informações ajudam minha psicóloga a compreender o que aconteceu dentro e fora da sessão. Uma carta pode revelar um alvo para o EMDR, uma experiência corporal que poderia ser acompanhada pelo Brainspotting, uma perda que ainda precisa ser lamentada, uma crença que se repete ou a necessidade de fortalecer recursos antes de continuar.
A decisão sobre como utilizar esse material não precisa ser tomada por mim sozinho. A própria escolha entre EMDR, Brainspotting ou outra forma de psicoterapia deve ser feita com base na avaliação profissional, em minha história, em minhas preferências, em minha resposta ao tratamento e na formação do terapeuta.
PROCURAR AJUDA NÃO DIMINUI MINHA AUTONOMIA
Procurar ajuda especializada não significa entregar a outra pessoa o controle sobre minha história. Um bom terapeuta não toma minha voz, não decide o significado de minha experiência por mim e não me obriga a entrar em lembranças para as quais ainda não estou preparado.
Ao contrário, o tratamento deve ampliar minha agência. Quero poder aproximar-me da dor porque escolhi fazê-lo, permanecer em contato com o presente, reconhecer quando preciso desacelerar e participar das decisões sobre meu próprio processo.
PABLO LUIZ RODRIGUES FERREIRA
Elaborado em julho de 2026.
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