terça-feira, 18 de agosto de 2026

 O TEMOR DO HOMEM: FORMAS SUTIS DE COVARDIA


O presente resumo corresponde ao capítulo 7 do livro Grandes pecados ordinários: confrontando nossas transgressões cotidianas, de Tim Gallant, intitulado “O temor do homem: formas sutis de covardia”.

O ponto de partida é o reconhecimento de que o desejo de ser amado, respeitado e aceito não é, por si mesmo, pecaminoso. O ser humano foi criado para a comunhão e, por isso, é natural desejar relações nas quais haja amor e honra recíprocos. O problema começa quando a necessidade de aprovação deixa de ocupar seu lugar legítimo e passa a governar nossas escolhas, especialmente quando buscamos ser aceitos por pessoas ou ambientes cujos valores entram em conflito com aquilo que Deus requer. Nesse momento, o desejo de aprovação pode conduzir à desobediência e à mundanidade. É nesse contexto que ganha força a advertência de Jesus em Lucas 6.26, ao pronunciar um “ai” sobre aqueles de quem todos falam bem.

A Escritura contrapõe a essa postura o temor do Senhor, que não deve ser entendido simplesmente como terror, mas como reconhecimento de quem Deus é e, consequentemente, da autoridade suprema de sua avaliação sobre a vida humana. Aquele que teme ao Senhor confia nele e reconhece que sua aprovação é, em última análise, a que realmente importa. Por isso, a Bíblia associa o temor de Deus ao princípio da sabedoria e do conhecimento, como se vê em Salmo 111.10, Provérbios 1.7 e Provérbios 9.10, além de relacioná-lo à confiança em Deus em Salmo 115.11.

O temor do homem representa a inversão dessa ordem. Provérbios 29.25 adverte que o temor diante dos homens se transforma em armadilha. O problema não está apenas no receio de que alguém possa nos perseguir ou prejudicar, mas principalmente na importância exagerada que atribuímos à aprovação alheia. Quando a desaprovação das pessoas nos causa vergonha a ponto de determinar nossa conduta, passamos a viver sob aquilo que o capítulo descreve como uma espécie de tribunal da opinião pública. Em vez de encontrarmos nossa segurança no juízo de Deus, procuramos justificação nos olhos das pessoas. A oposição entre essas duas lealdades aparece de modo especialmente claro em Gálatas 1.10, quando Paulo declara que procurar agradar aos homens é incompatível com a condição de servo de Cristo.

Covardia espiritual

É nesse quadro que a covardia adquire um significado espiritual. Apocalipse 21.8 menciona os covardes entre aqueles que não permanecem fiéis, o que deve ser compreendido no ambiente mais amplo do livro, marcado pelo contraste entre testemunhas que permanecem vinculadas a Cristo mesmo diante do sofrimento e aqueles que abandonam essa fidelidade para preservar a própria segurança.

Embora nem todos os cristãos enfrentem perseguição física ou martírio, a fidelidade a Cristo continua tendo um preço. Em situações concretas, pode custar reputação, amizades, vínculos familiares, oportunidades profissionais ou simplesmente a aprovação de determinado grupo. O chamado de Jesus para tomar a cruz pressupõe essa disposição de permanecer fiel mesmo quando a obediência traz consequências, razão pela qual Lucas 14.28 é relacionado à necessidade de calcular o custo do discipulado. A mesma realidade aparece no “escândalo da cruz” de Gálatas 5.11 e na afirmação de 1Coríntios 1.23 de que Cristo crucificado é escândalo para uns e loucura para outros.

Isso, porém, não autoriza o cristão a transformar fidelidade em grosseria. Há diferença entre sofrer rejeição porque se permaneceu fiel à verdade e provocar rejeição por arrogância, dureza ou falta de amor. O padrão é Efésios 4.15: falar a verdade em amor. O evangelho possui seu próprio escândalo; não há virtude em acrescentar a ele a nossa falta de sabedoria ou de gentileza.

A necessidade de se encaixar

O temor do homem também aparece em áreas aparentemente pequenas da vida. Uma delas é a escravidão às tendências, à aparência e àquilo que determinado ambiente considera aceitável. Vestir-se bem ou apreciar determinadas coisas não constitui problema; a questão surge quando a escolha passa a ser determinada pela necessidade de receber admiração, aprovação ou pertencimento.

Por isso, o capítulo não trata a moda simplesmente como problema estético, mas como oportunidade de examinar quem está formando nossos critérios. A pressão para usar aquilo que todos usam, adotar determinados comportamentos porque são considerados modernos ou reproduzir tendências apenas para não destoar pode revelar que o julgamento das pessoas adquiriu peso excessivo sobre nossas decisões.

A reflexão é relacionada a Gálatas 3.27, segundo o qual aqueles que pertencem a Cristo estão revestidos dele, e a 1Timóteo 2.9, que aponta para sobriedade, modéstia e bom senso. A questão ultrapassa o vestuário. O mesmo princípio se aplica a hábitos, consumo, linguagem e comportamentos adotados simplesmente porque determinada cultura ou círculo social os considera desejáveis.

As pessoas com quem escolhemos estar

Outra manifestação particularmente sutil aparece nos relacionamentos. A busca por aprovação pode nos aproximar daqueles cuja aceitação desejamos e, ao mesmo tempo, levar-nos a evitar pessoas cuja companhia pode diminuir nosso prestígio diante do grupo.

O exemplo bíblico mais expressivo é o de Pedro em Antioquia, narrado em Gálatas 2.11-14. Depois de já haver aprendido, em Atos 10, que os gentios eram plenamente recebidos por Deus, e de haver defendido essa realidade perante outros judeus em Atos 11.2-18, Pedro deixou de comer com os cristãos gentios quando chegaram determinados homens ligados ao grupo da circuncisão. A doutrina não havia mudado; o que mudou foi a plateia. O medo da reação daqueles homens foi suficiente para alterar sua conduta.

A mesma lógica é contrastada com Hebreus 11.25, no qual Moisés prefere sofrer juntamente com o povo de Deus a usufruir temporariamente os prazeres do pecado. Também se recorda 1Coríntios 1.26-31, em que Deus escolhe aquilo que o mundo considera fraco, insignificante e desprezível, e a parábola do bom samaritano, em Lucas 10.30-37, que desmonta categorias sociais de prestígio e desprezo.

O temor do homem, portanto, também pode ser percebido na pergunta: com quem tenho prazer em ser visto e de quem tenho vergonha de me aproximar? Quando o valor que atribuímos às pessoas depende da posição que elas ocupam perante nosso círculo social, já não estamos julgando segundo os critérios de Cristo.

Redes sociais e sinalização de virtude

A busca por aprovação encontrou nas redes sociais uma forma especialmente poderosa de expressão. Existe hoje uma pressão constante para manifestar opinião sobre acontecimentos públicos, controvérsias e causas, mesmo quando não possuímos informações suficientes ou quando pouco temos a acrescentar. Em muitos casos, o pronunciamento serve menos para esclarecer ou edificar e mais para mostrar aos outros que estamos do “lado certo” e, assim, obter reconhecimento.

Por isso, a Escritura oferece critérios que devem anteceder nossa fala. Efésios 4.24-25 exige compromisso com a verdade; 1Coríntios 8.1 lembra que o conhecimento pode ensoberbecer enquanto o amor edifica; Efésios 4.29 determina que nossas palavras sejam úteis para a edificação e transmitam graça; 1Timóteo 1.4 adverte contra controvérsias improdutivas; Mateus 12.36 chama atenção para as palavras ociosas; e Provérbios 18.21 recorda o poder da língua para produzir vida ou morte.

A maturidade cristã, portanto, não se demonstra pela necessidade de possuir e divulgar uma opinião sobre tudo. Às vezes, a fidelidade exige falar quando seria muito mais confortável permanecer calado; em outras ocasiões, exige justamente calar quando a única razão para falar é a necessidade de ser percebido, aprovado ou aplaudido.

Conclusão do capítulo

A saída para o temor do homem não consiste em desenvolver indiferença às pessoas nem em desprezar o conselho da comunidade cristã. A vida cristã é comunitária, e a sabedoria dos irmãos deve ser valorizada. O problema está na obsessão pela aprovação e na transferência para as pessoas de uma autoridade que somente Deus pode exercer sobre a consciência.

Por isso, o caminho apresentado é submeter o temor do homem ao temor do Senhor. À medida que a identidade do cristão é firmada em Cristo e a aprovação de Deus ocupa seu lugar próprio, o julgamento do mundo perde progressivamente seu poder de controlar nossas decisões.


O eixo central do capítulo

A meu ver, o ponto mais profundo do capítulo não é simplesmente que devemos ter coragem para assumir nossa fé. Isso seria verdadeiro, mas ainda superficial.

O eixo é uma disputa muito mais íntima: quem possui autoridade prática sobre a minha consciência?

O temor do homem surge quando concedemos à opinião das pessoas poder suficiente para modificar uma decisão que, diante de Deus, já sabemos qual deveria ser.

Por isso, ele não se manifesta apenas quando alguém diz: “Tenho medo das pessoas”. Pode aparecer quando pensamos:

“Não quero que pensem isso de mim.”

“Não quero parecer diferente.”

“Não quero perder meu lugar nesse grupo.”

“Não quero que associem meu nome àquela pessoa.”

“Preciso mostrar que também penso como eles.”

A questão, portanto, não é se a opinião das pessoas nos importa. Naturalmente importa. A questão é o que acontece quando essa opinião entra em conflito com a fidelidade a Deus.

É aí que surge a pergunta que, para mim, resume todo o capítulo: Quando a fidelidade a Deus e a minha necessidade de ser aceito entram em conflito, quem efetivamente decide a maneira como eu vivo?

E há um detalhe importante em Provérbios 29.25: o texto não contrapõe o temor do homem simplesmente à coragem. Ele contrapõe o temor do homem à confiança e à fidelidade ao Senhor.

Isso significa que o problema não se resolve apenas dizendo a um homem: “seja mais corajoso”.

Talvez a pergunta anterior seja: “Por que a desaprovação dessas pessoas parece tão grande para mim e a aprovação de Deus parece tão pequena?”


Perguntas para reflexão em grupo

De quem eu mais tenho medo de perder a aprovação?

Existe algum ambiente em que eu deliberadamente escondo, diminuo ou suavizo minhas convicções para ser aceito?

Há alguma coisa que sei que deveria fazer diante de Deus, mas ainda não faço porque temo aquilo que determinadas pessoas pensarão de mim?

Minha maneira de falar ou agir muda quando determinadas pessoas entram na sala?

Há pessoas das quais me aproximo porque possuem prestígio e outras das quais me afasto porque tenho vergonha de ser associado a elas?

Trato melhor quem pode me oferecer alguma coisa do que quem não possui nada que me interesse?

Quando publico ou comento alguma coisa nas redes sociais, desejo realmente edificar alguém ou, algumas vezes, desejo principalmente que os outros saibam qual é a minha posição?

Eu faria a mesma publicação se não existissem curtidas, comentários ou qualquer possibilidade de reconhecimento?

Há alguma convicção bíblica que comecei a considerar excessiva simplesmente porque a cultura passou a considerá-la estranha?

O que estou disposto a perder para permanecer fiel a Cristo?

Quando sei o que Deus espera de mim, mas obedecer poderá custar amizade, prestígio ou pertencimento, qual costuma ser minha reação?

Por que a desaprovação de certas pessoas exerce tanto poder sobre mim?

Se ninguém soubesse das minhas decisões, eu escolheria da mesma maneira?

Se eu tivesse plena consciência de que somente a aprovação de Deus é definitiva, o que mudaria hoje em minha vida?

Quando a fidelidade a Deus e a minha necessidade de ser aceito entram em conflito, quem efetivamente decide a maneira como eu vivo?


Textos principais para leitura no estudo: Provérbios 29.25; Lucas 6.26; Salmo 111.10; Provérbios 1.7; Gálatas 1.10; Apocalipse 21.8; Lucas 14.28; 1Coríntios 1.23; Efésios 4.15; Gálatas 2.11-14; Hebreus 11.25; 1Coríntios 1.26-31; Lucas 10.30-37; Efésios 4.29; Mateus 12.36 e Provérbios 18.21.


Resumo acrescido de reflexões elaborado por Pablo Ferreira, do livro: GALLANT, Tim. Grandes pecados ordinários: confrontando nossas transgressões cotidianas. Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto. 1. ed. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2025.